I

Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.

Tudo era confusão na casa dos Oblónski. A esposa ficara sabendo que o marido mantinha um caso com a ex-governanta francesa e lhe comunicara que não podia viver com ele sob o mesmo teto. Essa situação já durava três dias e era um tormento para os cônjuges, para todos os familiares e para os criados. Todos, familiares e criados, achavam que não fazia sentido morarem os dois juntos e que pessoas reunidas por acaso em qualquer hospedaria estariam mais ligadas entre si do que eles, os familiares e os criados dos Oblónski. A esposa não saía de seus aposentos, o marido não parava em casa havia três dias. As crianças corriam por toda a casa, como que perdidas; a preceptora inglesa se desentendera com a governanta e escrevera um bilhete para uma colega, pedindo que procurasse um outro emprego para ela; o cozinheiro abandonara a casa no dia anterior, na hora do jantar; a ajudante de cozinha e o cocheiro haviam pedido as contas.

No terceiro dia após a briga, o príncipe Stiepan Arcáditch Oblónski – Stiva, como era chamado em sociedade –, na hora de costume, ou seja, às oito da manhã, despertou não no quarto da esposa, mas no seu escritório, num sofá de marroquim. Virou o corpo farto e bem tratado sobre o sofá de molas, como se quisesse de novo dormir demoradamente, abraçou o travesseiro com força, pelo outro lado, e apertou o rosto contra ele; mas, de repente, se ergueu de um salto, sentou-se no sofá e abriu os olhos.

“Sim, sim, como era mesmo?”, pensou, lembrando o sonho. “Sim, sim, como era? Sim! Alabin dava um jantar em Darmstadt; não, não era em Darmstadt, mas algo americano. Sim, só que, lá, Darmstadt ficava na América. Sim, Alabin dava um jantar em mesas de vidro, sim – e as mesas cantavam: Il mio tesoro, mas não era Il mio tesoro e sim alguma coisa melhor, e havia umas garrafinhas que eram mulheres” – lembrava.

Os olhos de Stiepan Arcáditch reluziram, alegres e, sorrindo, pôs-se a pensar. “Sim, foi bom, muito bom. E ainda aconteceram muitas coisas extraordinárias, que não se dizem com palavras e, depois de acordar, não se podem exprimir nem em pensamentos.” E, ao notar a faixa de luz que penetrava pela beirada de uma das cortinas de feltro, baixou alegremente seus pés do sofá, procurou com eles os chinelos bordados pela esposa em marroquim dourado (presente de aniversário do ano anterior) e, segundo um antigo hábito de nove anos, sem se levantar, estendeu o braço na direção em que, no seu quarto de dormir, sempre ficava pendurado o roupão. E aí lembrou, de repente, como e por que não estava dormindo no quarto da esposa, mas sim no escritório; o sorriso desapareceu do rosto e ele franziu a testa.

– Ah, ah, ah! Aaah!… – pôs-se a grunhir, lembrando tudo o que acontecera. E sua imaginação de novo reproduziu todos os pormenores da briga com a esposa, o caráter completamente irremediável da situação e, o mais torturante de tudo, sua própria culpa.

“Sim! Ela não perdoará e não pode perdoar. E o mais terrível é que o culpado de tudo sou eu, sou eu o culpado, mas não tenho culpa. Nisto está todo o drama”, pensou. “Ah, ah, ah!”, repetiu com desespero, recordando as impressões mais penosas daquela briga.

O mais desagradável fora o primeiro minuto, quando ele, ao voltar do teatro, alegre e satisfeito, com uma enorme pera nas mãos para presentear a esposa, não a encontrou na sala; para sua surpresa, tampouco a encontrou no escritório e por fim foi dar com ela no quarto de dormir, com o maldito bilhete, que tudo revelava, em sua mão.

Ela, a sua Dolly, eternamente preocupada, atarefada e de inteligência curta, como ele a via, estava sentada imóvel com o bilhete na mão e olhava para ele com uma expressão de horror, de desespero e de ira.

– O que é isto? Isto? – perguntou ela, mostrando o bilhete.

E, nessa lembrança, como acontece muitas vezes, o que atormentava Stiepan Arcáditch era menos o fato em si do que a maneira como ele respondeu a essas palavras da mulher.

Aconteceu com ele, nesse momento, o mesmo que ocorre com pessoas surpreendidas em uma circunstância demasiado vergonhosa. Não soube preparar suas feições para a situação em que se viu, diante da esposa, após a revelação de sua culpa. Em lugar de ofender-se, negar, justificar-se, pedir perdão, ou até ficar indiferente – tudo teria sido melhor do que aquilo que fez! –, seu rosto, de modo completamente involuntário (“reflexos cerebrais”, pensou Stiepan, que gostava de fisiologia), de modo completamente involuntário, abriu de repente seu sorriso costumeiro, bondoso e, por isso mesmo, tolo.

Esse sorriso tolo, ele não conseguia perdoar-se. Ao ver o sorriso, Dolly estremeceu, como que em razão de uma dor física, prorrompeu, com seu ardor peculiar, numa torrente de palavras brutais e precipitou-se para fora do quarto. Desde então, não queria ver o marido.

“O culpado de tudo foi aquele sorriso idiota”, pensava Stiepan Arcáditch.

“Mas, o que fazer? O que fazer?”, dizia para si mesmo com desespero, e não encontrava resposta.

II

Stiepan Arcáditch era um homem sincero consigo mesmo. Não conseguia enganar-se e persuadir-se de que estava arrependido da sua conduta. Não conseguia, agora, arrepender-se por ele, um homem de trinta e quatro anos, bonito e namorador, não estar enamorado da esposa, mãe de cinco crianças vivas e de duas já mortas, e apenas um ano mais jovem do que ele. Arrependia-se apenas de não ter sabido dissimular melhor diante da esposa. Mas sentia toda a gravidade da sua situação e se compadecia da esposa, dos filhos e de si mesmo. Talvez soubesse dissimular melhor seus pecados, diante da esposa, se previsse que a notícia afetaria a ela desse modo. Está claro que nunca pensara sobre a questão, mas lhe parecia, vagamente, que a esposa já adivinhara, desde muito tempo, que ele não era fiel, e fazia vista grossa. Parecia-lhe até que ela, uma mulher esgotada, envelhecida, feia, sem nada de admirável, simples, apenas uma boa mãe de família, deveria, por um sentimento de justiça, mostrar-se indulgente. Deu-se exatamente o contrário.

“Ah, é terrível! Ai, ai, ai! É terrível!”, repetia consigo mesmo Stiepan Arcáditch, e nada conseguia imaginar. “E como tudo corria bem até isso acontecer, como vivíamos bem! Ela estava satisfeita, interessada nas crianças, nos assuntos domésticos, como desejava. De fato, foi péssimo ter sido ela a governanta em nossa casa. Péssimo! Existe algo de trivial, de vulgar, em um namoro com a própria governanta. Mas, que governanta! (Lembrou-se nitidamente dos olhos negros e travessos de mademoiselle Roland e do seu sorriso). Mas, afinal, enquanto ela estava em nossa casa, eu não me permitia coisa alguma. O pior de tudo é que ela já… Isso tudo até parece de propósito! Ai, ai, ai! Aiaiai! Mas o que fazer, o quê?”

Não havia resposta, exceto a resposta genérica que a vida sempre dá para as questões mais complicadas e insolúveis. Esta: é preciso viver conforme as necessidades de cada dia, noutras palavras, deixar-se levar. Já era impossível deixar-se levar pelo sono, pelo menos até a noite, já era impossível voltar àquela música que as mulheres-garrafinhas cantavam; portanto era preciso deixar-se levar pelo sonho da vida.

“Mais adiante, veremos”, disse para si mesmo Stiepan Arcáditch e, após se levantar, vestiu um roupão cinzento forrado de seda azul, laçou as borlas com um nó e, depois de inspirar fundo até fartar seu largo tórax, com os habituais passos resolutos das pernas desenvoltas, que transportavam com tamanha leveza seu corpo volumoso, aproximou-se da janela, ergueu a cortina e tilintou a campainha ruidosamente. Ao chamado, acudiu de imediato um velho amigo, o camareiro Matviei, que trouxe a roupa, os sapatos e um telegrama. Atrás de Matviei, entrou também o barbeiro com os apetrechos para fazer a barba.

– Há documentos da repartição? – perguntou Stiepan Arcáditch, pegando o telegrama e sentando-se diante do espelho.

– Sobre a mesa – respondeu Matviei, lançando para o patrão um olhar interrogativo, simpático e, depois de aguardar um pouco, acrescentou com um sorriso ladino: – Veio uma pessoa do serviço de coches de aluguel.

Stiepan Arcáditch nada respondeu e limitou-se a espiar Matviei através do espelho; pelo olhar com que os dois se encontraram no espelho, estava claro que se entendiam. O olhar de Stiepan Arcáditch parecia perguntar: “Para que está dizendo isso? Será que não sabe?”.

Matviei pôs as mãos nos bolsos da sua jaqueta, avançou a perna e, em silêncio, com bondade, quase sorrindo, olhou para o patrão.

– Mandei que viessem no domingo e que, até lá, não incomodassem o senhor em vão – explicou, com uma frase, pelo visto, preparada de antemão.

Stiepan Arcáditch compreendeu que Matviei queria gracejar e chamar atenção para si. Depois de abrir o telegrama, leu até o fim, corrigindo mentalmente as palavras erradas, de sempre, e seu rosto iluminou-se.

– Matviei, minha irmã Anna Arcádievna vai chegar amanhã – falou, detendo por um minuto a mãozinha lustrosa e roliça do barbeiro, que franqueara uma trilha rosada no meio das longas suíças aneladas.

– Graças a Deus – disse Matviei, mostrando com essa resposta compreender, do mesmo modo que o patrão, o significado dessa visita, ou seja, que Anna Arcádievna, a querida irmã de Stiepan Arcáditch, podia ajudar na reconciliação do casal.

– Sozinha ou com o marido? – perguntou Matviei.

Stiepan Arcáditch não podia falar pois o barbeiro se ocupava do seu lábio superior e levantou um dedo. Matviei, pelo espelho, acenou com a cabeça.

– Sozinha. Vamos preparar o quarto de cima?

– Avise Dária Aleksándrovna, ela resolverá.

– Dária Aleksándrovna? – repetiu Matviei, como que em dúvida.

– Sim, avise-a. E tome aqui o telegrama, entregue a ela e faça o que ela disser.

“Quer fazer um teste”, deduziu Matviei, mas disse apenas:

– Perfeitamente, senhor.

Stiepan Arcáditch já estava lavado e penteado e se preparava para vestir-se quando Matviei, pisando devagar com os sapatos rangentes e segurando o telegrama na mão, voltou para o quarto. O barbeiro já fora embora.

– Dária Aleksándrovna mandou avisar que vai embora. Que ele faça como quiser, ou seja, que o senhor faça como quiser – disse, rindo apenas com os olhos e, depois de enfiar as mãos nos bolsos e inclinar a cabeça para o lado, cravou os olhos no patrão.

Stiepan Arcáditch permaneceu calado. Depois, um sorriso benévolo e um pouco desolado surgiu no seu belo rosto.

– E agora, Matviei? – indagou, balançando a cabeça.

– Não há de ser nada, senhor, tudo se arranjará.

– Tudo se arranjará?

– Exatamente, senhor.

– Você acha? Quem está aí? – perguntou Stiepan Arcáditch, ao ouvir o barulho de um vestido atrás da porta.

– Sou eu, senhor – respondeu uma voz de mulher, firme e agradável e, de trás da porta, assomou o rosto severo e bexiguento de Matriona Filimónovna, a babá.

– O que foi, Matriocha? – perguntou Stiepan Arcáditch, saindo ao encontro dela, na porta.

Apesar de Stiepan Arcáditch ser totalmente culpado em relação à esposa e de ele mesmo pensar assim, quase todos na casa, e até a babá, principal aliada de Dária Aleksándrovna, estavam do lado dele.

– O que foi? – disse Stiepan, desalentado.

– Vá falar com ela, patrão, reconheça a sua culpa, de novo. Deus há de ajudar. Ela se atormenta muito e até dá pena de ver, e tudo na casa está em desordem. O senhor precisa ter pena das crianças, patrão. Reconheça sua culpa, patrão. O que fazer? Quem sai na chuva…

– Ela não me receberá…

– O senhor faz a sua parte. Deus é misericordioso, ore para Deus, patrão, Deus é misericordioso.

– Está bem, agora vá – disse Stiepan Arcáditch, corando de repente. – E agora me ajude a me vestir – dirigiu-se a Matviei e, num gesto resoluto, despiu o roupão.

Matviei já segurava a camisa, erguida como os arreios de um cavalo, soprou algum cisco invisível e, com uma evidente satisfação, envolveu nela o corpo bem tratado do patrão.

III

Depois de vestir-se, Stiepan Arcáditch borrifou-se com perfume, ajeitou os punhos da camisa, distribuiu pelos bolsos, com o gesto de costume, os cigarros, a carteira, os fósforos, o relógio de corrente dupla e com berloques e, depois de sacudir o lenço, sentindo-se limpo, perfumado, saudável e fisicamente alegre, a despeito de sua infelicidade, saiu, com as pernas ligeiramente trêmulas, na direção da sala, onde o café já o aguardava e, ao lado do café, cartas e papéis da repartição.

Leu as cartas. Uma delas era muito desagradável – de um comerciante que desejava comprar uma floresta nas propriedades da esposa. Era imprescindível vender a floresta; mas agora, até que houvesse uma reconciliação com a mulher, não se podia falar uma palavra sobre o assunto. O mais desagradável era que, com isso, se misturava um interesse pecuniário à questão urgente da sua reconciliação com a esposa. E a ideia de que ele poderia guiar-se por tal interesse, de que em nome da venda dessa floresta ele procuraria a reconciliação com a esposa – essa ideia o ofendia.

Encerrada a leitura das cartas, Stiepan Arcáditch puxou para si os papéis da repartição, folheou rapidamente dois processos, fez algumas anotações com um lápis grande e, depois de pôr de lado os processos, ocupou-se com o café; durante o café, desdobrou o jornal matutino, ainda úmido de tinta, e começou a ler.

Stiepan Arcáditch comprava e lia um jornal liberal, não em excesso, mas daquela tendência seguida pela maioria. E apesar de nem a ciência, nem a arte, nem a política o interessarem em especial, ele sustentava com firmeza, em todos esses assuntos, as opiniões seguidas pela maioria e pelo seu jornal, e só as modificava quando a maioria também as modificava ou, melhor dizendo, ele não as modificava, mas eram elas mesmas que se modificavam nele, de forma imperceptível.

Stiepan Arcáditch não escolhia nem as tendências nem as opiniões, eram antes as tendências e opiniões que vinham a ele, assim como não escolhia o modelo do chapéu ou da sobrecasaca, mas adotava o que os outros vestiam. E, para ele, que vivia num ambiente social em que a necessidade de alguma atividade intelectual se desenvolvia, de hábito, na idade madura, ter opiniões era tão indispensável quanto ter chapéu. Se existia uma razão para preferir a tendência liberal à conservadora, defendida também por muitos de seu círculo, não residia no fato de ele julgar a tendência liberal mais razoável, mas sim de estar mais próxima do seu modo de viver. O partido liberal dizia que na Rússia tudo andava mal e, de fato, Stiepan Arcáditch tinha muitas dívidas e o dinheiro, decididamente, era escasso. O partido liberal dizia que o casamento era uma instituição caduca e que era imprescindível reformulá-lo e, de fato, a vida familiar proporcionava poucas satisfações a Stiepan Arcáditch e o obrigava a mentir e a dissimular, o que tanto repugnava à sua natureza. O partido liberal dizia, ou melhor, dava a entender, que a religião não passava de um freio para a parte bárbara da população e, de fato, Stiepan Arcáditch não conseguia suportar sem dor nos pés nem um breve Te Deum e não conseguia compreender para que todas aquelas palavras terríveis e bombásticas sobre o outro mundo quando, neste mundo, viver poderia ser tão alegre. Além disso, Stiepan Arcáditch, que adorava brincadeiras divertidas, gostava de às vezes escandalizar pessoas pacatas dizendo que, se elas se orgulhavam tanto de sua origem, não deviam deter-se em Riurik[1] e renegar o primeiro fundador – o macaco. Assim, a tendência liberal tornou-se um hábito para Stiepan Arcáditch, e ele gostava do seu jornal, como do charuto após o jantar, em razão da leve bruma que produzia em sua cabeça. Leu o editorial que explicava como, em nossa época, é totalmente inútil clamar que o radicalismo está ameaçando tragar todos os elementos conservadores e que o governo tem o dever de tomar medidas para esmagar a hidra da revolução, quando, ao contrário, “na nossa opinião, o perigo jaz não em uma imaginária hidra da revolução, mas na persistência do tradicionalismo, que trava o progresso” etc. Leu também um outro artigo, sobre finanças, em que se mencionavam Bentham e Mill e se davam agudas alfinetadas no ministério. Com a rapidez de compreensão que lhe era peculiar, entendia o significado de todas as alfinetadas: de quem, para quem e por que motivo foram lançadas, e isso, como sempre, lhe dava certo prazer. Mas, hoje, esse prazer fora envenenado pela lembrança dos conselhos de Matriona Filimónovna e por andar tudo tão mal em sua casa. Leu também que o conde Beist, pelo que diziam, partira para Wiesbaden, e que não era mais preciso ter cabelos brancos, e que havia uma carruagem ligeira à venda, e que uma pessoa jovem oferecia seus serviços; mas essas notícias não lhe deram, como antes, um prazer sereno, irônico.

Terminados o jornal, a segunda xícara de café e o pãozinho com manteiga, levantou-se, sacudiu do colete as migalhas do pãozinho e, aprumando o peito largo, sorriu radiante, não porque houvesse no seu espírito algo especialmente agradável – o sorriso radiante tinha origem na boa digestão.

Mas esse sorriso radiante lembrou-lhe tudo, imediatamente, e ele se pôs a refletir.

Duas vozes de criança soaram atrás da porta (Stiepan Arcáditch reconheceu a voz de Gricha, o filho menor, e a voz de Tânia, a filha mais velha). Puxavam alguma coisa e a deixaram cair.

– Eu disse que os passageiros não podem sentar no telhado – gritou a menina, em inglês. – Agora apanhe!

“Tudo está em desordem”, pensou Stiepan Arcáditch, “as crianças andam à solta, sozinhas.” E, aproximando-se da porta, chamou-as com um grito. Os dois abandonaram o porta-joias, que fazia as vezes de um trem, e vieram ao encontro do pai.

A menina, sua favorita, entrou correndo sem hesitar, abraçou-o e, rindo, pendurou-se no seu pescoço, como sempre, deliciando-se com o perfume conhecido, que se propagava de suas suíças. Depois de o beijar, enfim, no rosto radiante de ternura e avermelhado por causa da posição inclinada, a menina soltou as mãos e quis correr para trás; mas o pai a segurou…

– E a mamãe? – perguntou ele, passando a mão no pescocinho liso e delicado da filha. – Bom dia – falou, sorrindo, para o menino que viera cumprimentá-lo.

Reconhecia gostar menos do menino e sempre tentava ser imparcial; mas o menino percebia isso e não respondeu com um sorriso ao frio sorriso do pai.

– Mamãe? Já levantou – respondeu a menina.

Stiepan Arcáditch suspirou. “Quer dizer que, mais uma vez, passou a noite inteira sem dormir”, pensou ele.

– Mas ela está alegre?

A menina sabia que os pais haviam brigado, que a mãe não podia estar alegre, que o pai devia saber disso e que ele dissimulava, ao indagar de forma tão despreocupada. A menina ruborizou-se por causa do pai. Ele compreendeu no mesmo instante e também ruborizou-se.

– Não sei – respondeu. – Ela não mandou ir estudar, mas dar um passeio com miss Hull, até a casa da vovó.

– Muito bem, então vá, minha Tantchúrotchka. Ah, espere – disse ele, no entanto, segurando e afagando a delicada mãozinha da menina.

Pegou uma caixinha de bombons em cima da lareira, onde a pusera no dia anterior, escolheu um de chocolate e um de creme, os prediletos da filha, e deu a ela.

– Para o Gricha? – perguntou a menina, apontando para o de chocolate.

– Sim, sim. – E depois de afagar mais uma vez os ombrinhos da filha, beijou-a na raiz dos cabelos, no pescoço e soltou-a.

– A carruagem está pronta – disse Matviei. – Uma mulher quer vê-lo – acrescentou ele.

– Está aí há muito tempo? – perguntou Stiepan Arcáditch.

– Meia horinha.

– Quantas vezes já mandei você me avisar imediatamente!

– Era preciso esperar que o senhor pelo menos terminasse o café – disse Matviei, naquele tom amistoso e sem cerimônia, com o qual era impossível zangar-se.

– Pois bem, mande logo entrar – disse Oblónski, franzindo o rosto, de irritação.

A requerente, a esposa do capitão Kalínin, pedia algo impossível e despropositado; mas Stiepan Arcáditch, como era seu costume, a fez sentar-se, escutou com atenção e sem interromper, deu-lhe um conselho pormenorizado, disse a quem e como dirigir-se, e até, com a sua letra graúda, alongada, bonita e clara, redigiu, com presteza e capricho, um bilhete para a pessoa que podia ajudá-la. Depois que ela se foi, Stiepan Arcáditch pegou o chapéu e deteve-se, pensando se não esquecera nada. Verificou-se que nada havia esquecido, além daquilo que desejava esquecer – a esposa.

“Ah, sim!”, baixou a cabeça e seu belo rosto tomou uma expressão melancólica. “Ir ou não ir?” – perguntou a si mesmo. E uma voz interior lhe disse que era desnecessário ir, que nada poderia resultar, senão falsidade, que era impossível pôr em ordem, reparar as relações entre eles, pois era impossível torná-la de novo atraente e estimulante ao amor, ou transformá-lo num velho, incapaz de amar. Além de falsidade e mentira, nada agora poderia resultar dali; e falsidade e mentira repugnavam à sua natureza.

“No entanto, mais cedo ou mais tarde, será preciso; afinal, isso não pode continuar assim”, disse ele, tentando encorajar-se. Aprumou o peito, pegou um cigarro, pôs-se a fumar, deu duas baforadas, jogou-o no cinzeiro de madrepérola, atravessou a sala escura com passos ligeiros e abriu uma outra porta, para o quarto da esposa.

IV

Dária Aleksándrovna, de blusa, com as tranças presas na nuca por grampos, em seus cabelos outrora fartos e bonitos, mas agora ralos, com o rosto magro e encovado e os olhos grandes e assustados que sobressaíam na face macilenta, estava de pé no meio de objetos espalhados pelo quarto, diante do guarda-roupa aberto, do qual retirava alguma coisa. Ao ouvir os passos do marido, parou, olhou para a porta e em vão tentou dar ao rosto uma expressão severa e desdenhosa. Sentia que o temia e que temia a conversa iminente. Naquele momento, tentava fazer o que já tentara dez vezes, naqueles três dias: recolher as suas coisas e as das crianças, a fim de levar para a casa da mãe – e de novo não conseguia decidir-se a fazê-lo; mas também agora, como na vez anterior, ela se dizia que aquilo não poderia continuar, que era preciso tomar uma atitude, castigá-lo, envergonhá-lo, vingar-se de pelo menos uma pequena parte da dor que ele lhe causara. Ainda declarava que o deixaria, mas sentia que era impossível; impossível porque não conseguia perder o hábito de considerá-lo seu marido e de amá-lo. Além do mais, sentia que se ali, em sua casa, mal conseguia tomar conta de seus cinco filhos, haveria de ser ainda pior aonde quer que fosse com todos eles. De fato, nesses três dias, o caçula adoecera por causa de um caldo de carne estragado e os outros quase ficaram sem jantar, no dia anterior. Ela sentia que era impossível ir embora; mas, enganando a si mesma, recolhia suas coisas e simulava que ia partir.

Ao ver o marido, enfiou a mão em uma gaveta do guarda-roupa, como se procurasse alguma coisa, e só olhou para trás quando ele já chegara bem perto. Mas seu rosto, ao qual ela queria dar uma expressão severa e decidida, exprimia consternação e sofrimento.

– Dolly! – disse ele, com voz suave e acanhada. Tinha a cabeça encolhida entre os ombros e queria exibir um aspecto resignado e digno de pena, no entanto irradiava frescor e saúde.

Num relance, ela avaliou da cabeça aos pés sua figura cheia de frescor e de saúde. “Sim, está feliz e satisfeito!”, pensou. “Mas e eu?! E essa benevolência repugnante, pela qual todos o adoram e o elogiam; odeio essa benevolência”, pensou ela. A boca se contraiu, os músculos da face começaram a tremer no lado direito do rosto pálido e nervoso.

– O que o senhor deseja? – disse, com uma voz rápida e profunda, que não era a sua.

– Dolly! – repetiu, com um tremor na voz. – Anna virá hoje.

– E o que tenho a ver com isso? Não posso recebê-la! – exclamou.

– Mas é preciso, Dolly…

– Saia, saia, saia daqui! – gritou, sem olhar para ele, como se o grito fosse causado por uma dor física.

Enquanto apenas pensava na esposa, Stiepan Arcáditch pôde se manter calmo, pôde ter esperança de que tudo se arranjaria, nas palavras de Matviei, e pôde ler tranquilamente seu jornal e tomar seu café; mas quando viu o rosto agoniado e sofrido da mulher, quando ouviu aquele tom de voz, submisso ao destino e desesperado, sentiu-se sufocar, algo subiu à sua garganta e os olhos começaram a brilhar de lágrimas.

– Meu Deus, o que fiz! Dolly! Pelo amor de Deus! Afinal… – Não conseguiu continuar, um soluço ficou em suspenso na garganta.

Ela fechou o guarda-roupa com estrondo e fitou-o.

– Dolly, o que posso dizer?… Apenas: perdoe, perdoe… Pense bem, será que nove anos de vida não podem redimir uns minutos, uns minutos…

Ela baixou os olhos e ouviu o que o marido dizia, esperando, como que implorando, que ele a fizesse mudar de ideia.

– Uns minutos… uns minutos de paixão… – disse ele, e quis continuar, mas, ao ouvir essa palavra, como que por efeito de uma dor física, de novo se contraíram os lábios da mulher e, mais uma vez, começaram a tremer os músculos do lado direito da face.

– Saia, saia daqui! – gritou ela, com voz ainda mais esganiçada. – E não me venha falar de suas paixões, de suas indecências!

Ela quis sair, mas cambaleou e segurou-se nas costas da cadeira para apoiar-se. O rosto do marido dilatou-se, os lábios incharam, os olhos encheram-se de lágrimas.

– Dolly! – disse, já soluçando. – Pelo amor de Deus, pense nas crianças, elas não são culpadas. O culpado sou eu, castigue-me, faça-me expiar minha culpa. Posso fazer qualquer coisa, estou preparado para tudo! Sou culpado, não há palavras que expressem o quanto sou culpado! Mas, Dolly, perdoe!

Ela sentou. Ele ouvia a respiração pesada e profunda da mulher e sentiu uma compaixão indescritível. Por várias vezes, Dolly quis começar a falar, mas não conseguiu. Ele esperava.

– Você só se lembra das crianças para brincar com elas, mas eu me lembro sempre e sei que agora estão perdidas – falou, pelo visto, uma das frases que, nos últimos três dias, vinha dizendo muitas vezes para si mesma.

Tratara o marido por “você” e ele a olhou com gratidão, e moveu-se a fim de segurar sua mão, mas ela, com repugnância, afastou-se.

– Eu penso nas crianças e por isso faria qualquer coisa no mundo para salvá-las; mas eu mesma não sei como salvá-las: devo separá-las do próprio pai ou devo deixá-las com um pai depravado?… Mas, diga-me, depois disso… que aconteceu, será possível vivermos juntos? Será possível? Diga-me, será possível? – repetiu, elevando a voz. – Depois de o meu marido, o pai de meus filhos, ter um caso amoroso com a governanta dos próprios filhos…

– Mas o que fazer? O que fazer? – disse ele, com voz de lamento, sem saber o que ele mesmo dizia e baixando cada vez mais a cabeça.

– O senhor me dá nojo, é asqueroso! – gritou, cada vez mais exaltada. – Suas lágrimas são de água! O senhor nunca me amou; não tem coração, nem dignidade! Para mim, o senhor é detestável, nojento, é um estranho, sim, um estranho! – Com dor e raiva, pronunciou esta palavra, para ela, pavorosa: estranho.

Stiepan olhou para a esposa e a raiva expressa em seu rosto deixou-o assustado e surpreso. Não percebia que sua piedade a irritava. No marido, ela via compaixão, e não amor. “Não, ela me odeia, não vai perdoar”, pensou.

– Isto é horrível! Horrível! – exclamou ele.

Nesse momento, no quarto vizinho, uma criança começou a gritar, na certa depois de um tombo; Dária Aleksándrovna pôs-se a ouvir com atenção e seu rosto, de repente, se suavizou.

Pareceu retomar o domínio de si mesma por alguns segundos, como se desconhecesse onde estava e o que fazia e, depois de levantar-se ligeiro, dirigiu-se para a porta.

“Afinal, ela ama o meu filho”, refletiu Stiepan, ao notar a transformação do rosto da mulher, ao grito da criança, “o meu filho; como pode me odiar?”.

– Dolly, só mais uma palavra – disse, caminhando na sua direção.

– Se o senhor vier atrás de mim, vou chamar os criados, as crianças! Para que todos saibam que o senhor é um canalha! Vou-me embora hoje mesmo e o senhor poderá viver aqui com a sua amante!

E saiu, batendo a porta.

Stiepan Arcáditch suspirou, enxugou o rosto e, com passos vagarosos, tomou a direção da porta. “Matviei diz: tudo se arranjará; mas, como? Não vejo a menor possibilidade. Ah, ah, que horror! E que maneira vulgar de gritar”, disse para si mesmo, lembrando o grito e as palavras da esposa; canalha e amante. “Talvez as criadas tenham ouvido! Que coisa horrivelmente vulgar!” Stiepan Arcáditch ficou sozinho por alguns segundos, enxugou os olhos, suspirou e, depois de aprumar o peito, saiu do quarto.

Era sexta-feira e, na sala de jantar, o relojoeiro alemão dava corda no relógio. Stiepan Arcáditch recordou uma brincadeira que fizera a respeito desse relojoeiro calvo e pontual, quando dissera que “tinham dado corda no alemão para ele, a vida inteira, dar corda nos relógios” – e sorriu. Stiepan Arcáditch gostava de um bom gracejo. “Mas, quem sabe, tudo se arranjará? Expressãozinha boa, esta: se arranjará”, pensou. “Tenho de usá-la.”

– Matviei! – gritou. – Prepare tudo, com Mária, para acomodar Anna Arcádievna na saleta – ordenou, quando Matviei apareceu.

– Perfeitamente.

Stiepan Arcáditch vestiu uma peliça e saiu para a varanda.

– Não virá jantar em casa? – perguntou Matviei, que o acompanhava.

– Depende. Tome aqui para as despesas – disse ele, retirando dez rublos da carteira. – Será o bastante?

– Bastante ou não, parece que temos de nos contentar com isso – respondeu Matviei, batendo a porta e se retirando da varanda.

Dária Aleksándrovna, enquanto isso, havia acalmado a criança e, depois de deduzir, pelo rumor da carruagem, que ele havia partido, voltou para o quarto. Era o seu único refúgio contra os afazeres domésticos, que logo a cercavam no instante em que saía. Ainda agora mesmo, no momento em que fora ao quarto das crianças, a inglesa e Matriona Filimónovna tiveram tempo de lhe fazer várias perguntas urgentes e às quais só ela podia responder: Como deviam vestir as crianças para o passeio? Vão tomar leite? Não era melhor chamar outro cozinheiro?

– Ah, me deixem, me deixem em paz! – disse ela e, de volta ao quarto, sentou-se no mesmo lugar onde havia conversado com o marido, apertou as mãos emagrecidas, com anéis que se soltavam dos dedos descarnados, e se pôs a recordar a conversa inteira. “Foi embora! Mas terá terminado com ela?”, pensou. “Será que não foi vê-la? Por que não lhe perguntei? Não, não, a reconciliação é impossível. Se permanecermos na mesma casa, seremos dois estranhos. Estranhos para sempre!” – repetiu mais uma vez, com uma ênfase especial, essa palavra tão horrível para ela. “E como eu amava, meu Deus, como eu o amava!… Como eu amava! E agora será que não o amo? Não o amo ainda mais do que antes? O mais horrível de tudo…” – começou, mas não concluiu o pensamento, porque Matriona Filimónovna surgiu na porta.

– A senhora podia mandar vir o meu irmão – disse. – Ele pode preparar o jantar; senão as crianças vão ficar até as seis horas sem comer, como ontem.

– Está bem, já vou sair e dar as ordens. Já mandaram comprar leite fresco?

E Dária Aleksándrovna mergulhou nos afazeres do dia e neles afogou seu desgosto, por um tempo.

V

Stiepan Arcáditch, graças à sua inteligência, aprendera com facilidade na escola, mas era preguiçoso e travesso e por isso ficara entre os últimos alunos; no entanto, apesar de sua vida sempre desregrada, de seu posto inferior na escala funcional e da sua idade ainda jovem, ele ocupava o honroso e bem remunerado cargo de chefe em uma das repartições de Moscou. Conseguira a nomeação por intermédio do marido de Anna, sua irmã, Aleksiei Aleksándrovitch Kariênin, que ocupava um dos cargos mais importantes no ministério a que pertencia a repartição; mas se Kariênin não houvesse nomeado o cunhado para esse posto, Stiva Oblónski, por meio de uma centena de outras pessoas, dos irmãos, das irmãs, de parentes, de primos, de tios, de tias, teria conseguido esse posto ou outro semelhante, com um salário de seis mil rublos, que lhe eram indispensáveis, pois os seus negócios, apesar da fortuna considerável da esposa, estavam em condição precária.

A metade de Moscou e de São Petersburgo era formada por parentes e amigos de Stiepan Arcáditch. Ele nascera entre pessoas que eram ou passaram a ser os poderosos deste mundo. A terça parte dos funcionários do Estado, os velhos, eram amigos do seu pai e o haviam conhecido ainda de fraldas; uma outra terça parte o tratava por “você” e a última terça parte era formada por bons conhecidos seus; portanto, aqueles que distribuíam as benesses da terra em forma de empregos públicos, arrendamentos, concessões e coisas semelhantes eram todos amigos dele e não podiam abandonar um dos seus; Oblónski nem precisou esforçar-se muito para obter um cargo vantajoso; bastou não fazer objeções, não se mostrar invejoso, não discutir, não se ofender, coisas que ele, em virtude da sua benevolência peculiar, nunca fazia. Acharia graça se lhe dissessem que não ia conseguir um emprego com o salário de que necessitava, ainda mais porque ele não pedia nada de extraordinário; queria apenas o mesmo que recebiam os homens da sua idade e podia cumprir aquela função tão bem quanto qualquer outro.

Amavam Stiepan Arcáditch não só todos os que o conheciam por seu caráter benévolo e alegre e por sua incontestável honestidade, como também, em sua aparência bela e radiosa, nos olhos cintilantes, nas sobrancelhas e nos cabelos negros, na brancura e no rubor do rosto, havia algo físico que produzia um efeito amistoso e alegre em todos os que o encontravam. “Aha! Stiva! Oblónski! Aí está ele!” – exclamavam quase sempre com um sorriso de satisfação, ao encontrá-lo. E se alguma vez, após uma conversa com ele, tinha-se a impressão de que nada de especialmente divertido acontecera, ao encontrá-lo no dia seguinte, ou dois dias depois, novamente todos se alegravam do mesmo modo.

Ocupando havia três anos o posto de chefe de uma das repartições de Moscou, Stiepan Arcáditch havia angariado não só o afeto, mas também o respeito dos colegas, dos subordinados, dos chefes e de todos os que tinham contato com ele. As principais qualidades de Stiepan Arcáditch, que o tornaram merecedor do respeito geral no trabalho, eram, em primeiro lugar, uma extraordinária boa vontade com as pessoas, amparada na consciência de seus próprios defeitos; em segundo lugar, um perfeito liberalismo, não do tipo sobre o qual lia nos jornais, mas aquele que trazia no sangue e graças ao qual tratava com perfeita paridade e igualdade todas as pessoas, qualquer que fosse sua condição e seu posto; e, em terceiro lugar – o mais importante de tudo –, uma completa indiferença com relação aos assuntos de que se ocupava no trabalho, razão pela qual jamais se deixava entusiasmar e não cometia erros.

Depois de chegar ao seu local de trabalho, Stiepan Arcáditch, acompanhado por um porteiro reverente e com uma pasta de documentos, dirigiu-se ao seu pequeno gabinete, vestiu o uniforme e entrou na repartição. Todos os escrivães e funcionários se levantaram, saudando-o com uma alegre e respeitosa inclinação de cabeça. Stiepan Arcáditch, apressadamente, como sempre, dirigiu-se ao seu lugar, apertou as mãos dos membros da repartição e sentou-se. Gracejou e falou exatamente o quanto convinha e começou a trabalhar. Ninguém sabia, de forma mais justa do que Stiepan Arcáditch, manter-se na fronteira entre a liberdade, a simplicidade e a formalidade, indispensável para o agradável desempenho de suas funções. O secretário, alegre e respeitoso, como eram todos na repartição com Stiepan Arcáditch, aproximou-se com papéis e declarou, no tom familiar e liberal introduzido ali por Stiepan Arcáditch:

– Conseguimos obter aquelas informações do governo da província de Penza. Aqui está, tenha a bondade, senhor…

– Recebemos, enfim? – disse Stiepan Arcáditch, pondo o dedo na folha de papel. – Puxa, meu Deus… – E teve início o trabalho da repartição.

“Se soubessem”, pensou ele, com feições graves na cabeça inclinada, enquanto lia o documento, “que meia hora atrás o seu chefe não passava de um garoto culpado!” E os olhos riam durante a leitura do documento. O trabalho deveria prosseguir sem interrupção até as duas horas, quando haveria uma pausa para o almoço.

Ainda não eram duas horas quando as grandes portas de vidro da sala da repartição se abriram de repente e alguém entrou. Todos os membros, abaixo do retrato do tsar e atrás do espelho da justiça,[2] alegres com aquela distração, voltaram os olhos para a porta; mas o guarda, postado junto à entrada, tratou imediatamente de expulsar o intruso e fechou atrás dele a porta de vidro.

Quando a leitura do processo terminou, Stiepan Arcáditch levantou-se, espreguiçou-se e, em honra aos tempos liberais, tirou um cigarro do bolso em plena repartição e seguiu para o seu gabinete. Dois companheiros, o veterano Nikítin e o camareiro da corte Griniêvitch, saíram com ele.

– Depois do almoço, teremos tempo para terminar – disse Stiepan Arcáditch.

– Tempo de sobra! – disse Nikítin.

– Que grandessíssimo velhaco deve ser esse tal de Fomin – comentou Griniêvitch, referindo-se a um dos personagens do caso que os ocupava.

Stiepan Arcáditch fez uma careta a essas palavras de Griniêvitch, dando a entender, desse modo, que não convinha formar um juízo prematuramente, e nada respondeu.

– Quem era aquele que entrou? – perguntou para o veterano.

– Ele, Vossa Excelência, penetrou sem pedir licença, assim que virei as costas. Perguntava pelo senhor. Eu disse a ele: na hora em que os membros saírem, aí então…

– Onde está ele?

– Na certa saiu para o saguão, mas lá vem ele ali. É o mesmo – disse o veterano, apontando para um homem de ombros largos, compleição vigorosa e barba crespa, o qual, sem tirar o gorro de pele de carneiro, galgava com rapidez e facilidade os gastos degraus da escada de pedra. Um dos funcionários que desciam com pastas de documentos, um homem magro, depois de se deter por um momento, olhou de modo desaprovador para os pés do homem que corria e, em seguida, fitou Oblónski com ar interrogativo.

Stiepan Arcáditch estava no alto da escada. Seu rosto bondoso e radiante, por trás da gola bordada do uniforme, brilhou mais ainda quando reconheceu o homem que vinha às pressas.

– Ora essa! Liévin, enfim! – exclamou, com um sorriso amigável e jocoso, mirando Liévin, que se aproximava. – Como não sentiu repugnância de vir me encontrar neste antro? – disse Stiepan Arcáditch, sem se contentar com o aperto de mão e beijando a face do amigo. – Está aqui há muito tempo?

– Cheguei agora mesmo e precisava muito ver você – respondeu Liévin, tímido, mas, ao mesmo tempo, zangado e olhando em redor com agitação.

– Pois bem, vamos ao meu gabinete – disse Stiepan Arcáditch, que conhecia a exasperada e orgulhosa timidez do amigo; e, depois de segurá-lo pelo braço, arrastou-o atrás de si, como se o conduzisse em meio a perigos.

Stiepan Arcáditch era tratado de “você” por quase todos os seus conhecidos: velhos de sessenta anos, jovens de vinte, atores, ministros, comerciantes e generais, de tal modo que muitos que o tratavam por “você” se situavam nos dois extremos da escala social e ficariam bastante surpresos se soubessem que, por intermédio de Oblónski, tinham algo em comum. Tratavam-no de “você” todos aqueles com quem bebia champanhe, mas ele bebia champanhe com todos, e assim, ao encontrar, em presença de subordinados, os seus “vocês” desonrosos, como chamava de brincadeira a muitos de seus amigos, ele, com o tato que lhe era peculiar, conseguia atenuar qualquer impressão desagradável nos subordinados. Liévin não pertencia aos “vocês” desonrosos, mas Oblónski, com o seu tato, percebia que Liévin imaginava que ele, diante de subordinados, talvez não desejasse manifestar a familiaridade que havia entre ambos e por isso apressou-se a levá-lo para o seu gabinete.

Liévin tinha quase a mesma idade que Oblónski e o tratava de “você” não por beberem champanhe juntos. Liévin era seu companheiro e amigo desde o início da juventude. Gostavam um do outro, a despeito das diferenças de caráter e de gosto, como se estimam os amigos que se conheceram ainda no início da juventude. Mas, apesar disso, como não raro ocorre entre pessoas que elegeram diferentes áreas de atividade, cada um deles, embora acatasse e justificasse a profissão do outro, no íntimo a desprezava. Parecia, a cada um, que a vida que ele mesmo levava era a vida autêntica e a vida do amigo não passava de uma miragem. Oblónski não conseguia reprimir um leve sorriso zombeteiro ao ver Liévin. Quantas vezes já o vira chegar a Moscou, vindo do interior, onde fazia alguma coisa, mas o que era exatamente, Stiepan Arcáditch jamais conseguia compreender direito, e isso tampouco o interessava. Liévin sempre chegava a Moscou agitado, afoito, um pouco constrangido e irritado com esse constrangimento e, na maioria das vezes, tinha um modo de ver as coisas inteiramente novo e inesperado. Stiepan Arcáditch ria e gostava disso. Da mesma forma, Liévin, no fundo, desdenhava o modo urbano de vida do amigo e o seu trabalho, que considerava uma bobagem, e ria dele. Mas a diferença residia em que Oblónski, fazendo o que todos fazem, ria de maneira confiante e compreensiva, ao passo que Liévin não se sentia seguro e às vezes se exasperava.

– Há muito tempo que o aguardávamos – disse Stiepan Arcáditch, ao entrar no gabinete, depois de soltar o braço de Liévin, como se com isso mostrasse que ali os perigos haviam cessado. – Estou muito, muito feliz em vê-lo – prosseguiu. – Mas o que houve? Como e quando chegou?

Liévin nada respondeu, olhando de relance para os rostos desconhecidos dos dois colegas de Oblónski e, em especial, para a mão do elegante Griniêvitch, com dedos tão brancos e longos, unhas tão compridas, amarelas e recurvadas na ponta, e abotoaduras tão grandes e reluzentes nos punhos da camisa, que aquelas mãos pareceram absorver toda a sua atenção e privaram-no da liberdade de pensamento. Oblónski notou isso imediatamente e sorriu.

– Ah, sim, permita que eu os apresente – disse ele. – Meus colegas: Filip Ivánitch Nikítin, Mikhail Stanislávitch Griniêvitch. – E, voltando-se para Liévin: – Um membro atuante do ziemstvo,[3] um novo membro, um atleta capaz de erguer cinco puds [4] com uma das mãos, criador de gado, caçador e meu amigo, Konstantin Dmítritch Liévin, irmão de Serguei Ivánitch Kóznichev.

– Muito prazer – disse o veterano.

– Tenho a honra de conhecer o irmão do senhor, Serguei Ivánitch – disse Griniêvitch, oferecendo sua mão fina, com dedos compridos.

Liévin franziu o rosto, apertou friamente a mão e virou-se depressa para Oblónski. Embora tivesse grande respeito por seu meio-irmão, escritor famoso em toda a Rússia, Liévin agora não conseguia tolerar quando se dirigiam a ele não como Konstantin Liévin, mas como o irmão do célebre Kóznichev.

– Não, já não sou membro do ziemstvo. Briguei com todos e não vou mais às reuniões – explicou para Oblónski.

– Tão cedo? – disse Oblónski, com um sorriso. – Mas como? Por quê?

– É uma história comprida. Contarei em outro dia – respondeu Liévin, mas passou a contar no mesmo instante. – Pois bem, em resumo, eu me convenci de que o ziemstvo nada faz, nem pode fazer – pôs-se a falar, como se alguém o tivesse ofendido. – De um lado, é uma brincadeira, brincam de parlamento, e não sou jovem o bastante, nem velho o bastante, para distrair-me com brinquedos; de outro lado, (hesitou) é um meio para a coterie provincial ganhar um dinheirinho. Antes, havia as tutelas, os tribunais, e agora temos o ziemstvo; antes, eram os subornos e, agora, são os salários imerecidos – disse com ardor, como se alguém entre os presentes houvesse contestado sua opinião.

– Ah! Então, pelo que vejo, você está de novo em uma nova fase, e dessa vez, conservadora – disse Stiepan Arcáditch. – Mas deixemos isso para depois.

– Sim, depois. Só que eu precisava falar com você – disse Liévin, espiando com ódio a mão de Griniêvitch.

Stiepan Arcáditch sorriu de modo quase imperceptível.

– Mas você não tinha dito que nunca mais vestiria roupas europeias? – perguntou, observando sua nova indumentária, de corte nitidamente francês. – Ah! Já entendi: a nova fase.

Liévin ruborizou-se, de repente, porém não como se ruborizam as pessoas adultas – de leve, sem que elas mesmas percebam –, mas sim como os meninos, que se sentem ridículos por seu acanhamento e, em consequência, envergonham-se e ruborizam-se ainda mais, quase até as lágrimas. Era tão penoso olhar aquele rosto inteligente e másculo numa situação tão infantil que Oblónski desviou os olhos.

– Sim, mas onde nos encontraremos? Pois preciso muito, muito mesmo, conversar com você – disse Liévin.

Oblónski pareceu refletir:

– Façamos o seguinte: vamos almoçar no Gurin e lá conversaremos. Estou livre até as três horas.

– Não – respondeu Liévin, depois de pensar. – Tenho de ir a um outro lugar.

– Pois bem, vamos jantar juntos.

– Jantar? Mas não se trata de nada demais, só preciso dizer duas palavrinhas, perguntar uma coisa, e mais tarde conversaremos à vontade.

– Então me diga agora mesmo essas duas palavrinhas e durante o jantar conversaremos.

– Bem, trata-se do seguinte – disse Liévin –, mas na verdade não é nada de importante.

Seu rosto, de repente, tomou uma expressão raivosa, causada pelo esforço de superar o seu acanhamento.

– O que fazem os Cherbátski? O mesmo de antes? – disse ele.

Stiepan Arcáditch, ciente havia muito de que Liévin estava apaixonado pela sua cunhada Kitty, sorriu de modo quase imperceptível e seus olhos cintilaram alegremente.

– Duas palavrinhas, você disse, mas eu não posso responder a essas duas palavrinhas porque… Perdoe-me por um minuto…

O secretário entrou com uma deferência familiar e com aquela discreta consciência, generalizada entre os secretários, da sua superioridade em relação ao chefe no tocante ao conhecimento dos assuntos do serviço, aproximou-se de Oblónski, com papéis na mão e, sob o pretexto de fazer uma pergunta, passou a explicar alguma dificuldade. Stiepan Arcáditch, sem escutar até o fim, pôs sua mão afável na manga do secretário.

– Não, o senhor faça conforme eu lhe disse – interrompeu ele, com um sorriso para amenizar sua objeção e, depois de explicar de forma concisa o seu modo de ver a questão, afastou os papéis e disse: – Faça assim. Por favor, desse modo, Zakhar Nikítin.

O secretário, embaraçado, retirou-se. Liévin, que no decorrer da consulta do secretário se refizera completamente de seu constrangimento, estava de pé, apoiava-se na cadeira com as duas mãos e, no rosto, tinha uma atenção irônica.

– Não entendo, não entendo – disse ele.

– Não entende o quê? – perguntou Oblónski, sorrindo alegremente e retirando um cigarro do bolso. Esperava de Liévin alguma extravagância.

– Não entendo o que vocês fazem – disse Liévin, encolhendo os ombros. – Como você consegue levar isso a sério?

– Por quê?

– Porque não leva a nada.

– É o que você pensa, mas nós estamos sobrecarregados de serviço.

– Papelada. Mas você tem um dom para isso – acrescentou Liévin.

– Quer dizer que, na sua opinião, tenho um defeito?

– Talvez sim – respondeu Liévin. – Apesar disso, admiro o seu posto elevado e me orgulho de ter por amigo um homem tão importante. Entretanto você não respondeu minha pergunta – acrescentou, com um esforço desesperado, mirando de frente os olhos de Oblónski.

– Calma, calma. Espere um pouco que você vai chegar lá. Afinal, você possui três mil diessiatinas[5] de terra no distrito de Karazínski, e esses músculos, e esse frescor de uma menina de doze anos, você há de ser um de nós. Sim, e quanto àquilo que perguntou: não houve mudanças, mas é pena você ter ficado tanto tempo sem ir…

– O que foi? – perguntou Liévin, assustado.

– Nada – respondeu Oblónski. – Conversaremos depois. Mas para quê, exatamente, você veio me ver?

– Ah, sobre isso também conversaremos depois – disse Liévin, de novo ruborizado até as orelhas.

– Muito bem. Eu entendo – disse Stiepan Arcáditch. – Veja, eu o convidaria para vir à minha casa, mas minha esposa não anda muito bem de saúde. Faça o seguinte: se quiser vê-los, eles estarão com certeza no Jardim Zoológico entre quatro e cinco horas. Kitty vai andar de patins. Você irá até lá, e eu passarei lá também, e juntos iremos jantar em algum lugar.

– Excelente, até logo.

– Mas preste atenção, eu conheço você, não vá esquecer tudo e partir de repente para o campo! – gritou Stiepan Arcáditch, rindo.

– Não, está tudo certo.

E, dando-se conta, quando já estava na porta, de que se esquecera de despedir-se dos colegas de Oblónski, Liévin saiu do gabinete.

– Deve ser um homem de grande energia – disse Griniêvitch, depois que Liévin saiu.

– Sim, meu caro – disse Stiepan Arcáditch, balançando a cabeça. – Que felizardo! Três mil diessiatinas de terra no distrito de Karazínski, a vida inteira pela frente, e que saúde! Bem diferente da nossa laia.

– E você tem muito do que se lamentar, não é, Stiepan Arcáditch?

– Sim, as coisas vão mal, vão pessimamente – respondeu Stiepan Arcáditch, depois de dar um suspiro profundo.

VI

Quando Oblónski perguntou a Liévin por que viera a Moscou, Liévin ruborizou-se e irritou-se consigo mesmo por ter se ruborizado, pois não podia responder “vim pedir a sua cunhada em casamento”, embora tivesse vindo exatamente por isso.

Os Liévin e os Cherbátski eram antigas famílias fidalgas moscovitas e sempre mantiveram relações estreitas e amistosas. Essa ligação consolidou-se ainda mais na época em que Liévin foi estudante universitário. Preparou-se para a prova e ingressou na universidade juntamente com o jovem príncipe Cherbátski, irmão de Dolly e de Kitty. Nessa época, Liévin frequentava muito a casa dos Cherbátski e, lá, apaixonou-se. Por mais que possa parecer estranho, Konstantin Liévin apaixonou-se mais precisamente pela casa, pela família, em especial pela metade feminina da família Cherbátski. Liévin não tinha lembranças da própria mãe e sua única irmã era mais velha do que ele, portanto, na casa dos Cherbátski, Liévin encontrou pela primeira vez o ambiente de uma antiga família nobre, educada e honesta, do qual se vira privado em virtude da morte do pai e da mãe. Todos os membros dessa família, em especial a metade feminina, lhe pareciam encobertos por um véu misterioso e poético e ele não só não percebia neles nenhum defeito como também, sob esse véu poético que os encobria, supunha existirem os sentimentos mais elevados e todas as perfeições possíveis. Para quê as três senhoritas precisavam falar inglês e francês, em dias alternados; para quê, em horas determinadas e em turnos alternados, elas tocavam piano, cujos sons se ouviam o tempo todo no quarto do irmão, no andar de cima, onde os universitários estudavam; para quê vinham até lá aqueles professores de literatura francesa, de música, de desenho, de dança; para quê, em horas determinadas, as três senhoritas saíam na caleche com mademoiselle Linon, rumo ao Bulevar Tvérskoi, em seus casacos de cetim – Dolly com um longo, Natália com um médio e Kitty com um bem curto, de modo que suas perninhas graciosas, cingidas com firmeza por meias vermelhas, ficavam inteiramente à mostra; para que tinham elas de ir ao Bulevar Tvérskoi, na companhia de um lacaio, com um penacho dourado no chapéu – tudo isso, e muito mais que se fazia naquele mundo misterioso, Liévin não entendia, mas sabia que tudo o que lá se fazia era belo, e se apaixonou em especial por esse mistério em torno do que se passava.

Em seus tempos de estudante, Liévin por pouco não se apaixonou pela mais velha, Dolly, mas esta logo se casou com Oblónski. Em seguida, começou a se enamorar da segunda. Parecia crer que precisava apaixonar-se por uma das irmãs, mas não conseguia atinar qual delas exatamente. No entanto, também Natália, tão logo foi apresentada à sociedade, casou-se com o diplomata Lvov. Kitty ainda era uma criança quando Liévin terminou a universidade. O jovem Cherbátski, depois de ingressar na marinha, morreu afogado no mar Báltico e os contatos de Liévin com os Cherbátski, apesar de sua amizade por Oblónski, tornaram-se mais raros. Mas quando, no início do inverno daquele ano, Liévin veio a Moscou após um ano no campo e encontrou-se com os Cherbátski, compreendeu por qual das três estava de fato destinado a se apaixonar.

À primeira vista, nada poderia ser mais simples do que ele, um homem de boa linhagem, de trinta e dois anos, mais para rico do que para pobre, pedir em casamento a princesa Cherbátskaia; com toda a probabilidade, logo o considerariam um ótimo partido. Mas Liévin estava apaixonado e por isso lhe parecia que Kitty era de tamanha perfeição em todos os aspectos que havia de estar forçosamente acima de tudo o que existia na Terra e que ele, por sua vez, era uma criatura tão baixa e terrena que nem se poderia conceber que os outros e a própria Kitty o julgassem digno dela.

Depois de passar dois meses em Moscou, como que inebriado, encontrando-se com Kitty todos os dias em reuniões sociais que passara a frequentar a fim de vê-la, Liévin de repente resolveu que aquilo era impossível e partiu para o campo.

A convicção de Liévin de que se tratava de algo impossível apoiava-se no fato de que, aos olhos dos parentes, ele não era um partido vantajoso e digno da encantadora Kitty, e de que a própria Kitty não poderia amá-lo. Aos olhos dos parentes, Liévin não tinha uma atividade regular e determinada, e tampouco uma posição na sociedade, ao passo que os seus colegas, a essa altura da vida, quando ele contava trinta e dois anos, já eram, alguns, coronéis e ajudantes de campo, outros, professores, outros, diretores de banco e de estrada de ferro ou chefes de repartição pública, como Oblónski; Liévin, por sua vez (e ele sabia muito bem como os outros o viam), não passava de um senhor de terras, dedicava-se à criação de vacas, à caça de narcejas e à edificação rural, ou seja, um pobre medíocre, que nada conseguira e que fazia, na opinião da sociedade, o mesmo que fazem pessoas imprestáveis.

A misteriosa e encantadora Kitty não poderia amar um homem tão feio, como Liévin se julgava, e sobretudo tão comum, que não se destacava por coisa alguma. Além disso, o seu relacionamento anterior com Kitty – a relação de um adulto com uma criança, decorrente de sua amizade com o irmão dela – lhe parecia um obstáculo a mais para o amor. Um homem feio e bom, como Liévin se julgava, poderia, na sua opinião, ser estimado como um amigo, mas para ser amado com aquele amor que sentia por Kitty, era necessário ser um homem belo, importante e fora do comum.

Já ouvira dizer que as mulheres, muitas vezes, amavam homens feios e comuns, mas não acreditava, porque julgava os outros por si mesmo e ele só seria capaz de amar mulheres belas, misteriosas e fora do comum.

No entanto, depois de dois meses sozinho no campo, Liévin se convenceu de que não se tratava de uma daquelas paixões que experimentara na mocidade; que esse sentimento não lhe dava um minuto de sossego; que ele não conseguiria viver sem solucionar a seguinte questão: haveria de ser ela a sua esposa, ou não? E que o seu desespero provinha apenas da sua imaginação, pois ele não tinha nenhuma prova de que seria rejeitado. E, dessa vez, viera a Moscou imbuído do firme propósito de pedir sua mão e casar, se fosse aceito. Ou então… nem conseguia pensar no que seria dele, se o rejeitassem.

VII

Depois de chegar a Moscou no trem da manhã, Liévin hospedou-se na casa de Kóznichev, seu irmão por parte de mãe, mais velho que ele, e, após trocar-se, foi encontrá-lo em seu escritório com a intenção de contar-lhe imediatamente o motivo de sua vinda e pedir seu conselho: mas o irmão não estava só. Em sua companhia, estava um famoso professor de filosofia, que viera de Khárkov especialmente para esclarecer um mal-entendido que surgira entre eles, em torno de questões filosóficas de extrema importância. O professor travava uma polêmica ardorosa contra os materialistas, Serguei Kóznichev acompanhava-a com interesse e, tendo lido o mais recente artigo do professor, escreveu-lhe uma carta com as suas objeções; acusava-o de fazer excessivas concessões aos materialistas. O professor viera imediatamente, a fim de chegar a um entendimento. A discussão tratava de uma questão muito em voga: existe uma fronteira entre os fenômenos psíquicos e fisiológicos na atividade humana? E onde ela se encontra?

Serguei Ivánovitch recebeu o irmão com o sorriso afetuoso e frio a que todos estavam habituados e, depois de apresentá-lo ao professor, prosseguiu a conversa.

O homenzinho bilioso, de óculos e de testa estreita, desviou-se da conversa por um instante a fim de cumprimentá-lo e deu seguimento ao debate, sem prestar atenção a Liévin. Este sentou-se à espera da partida do professor, mas logo se interessou pelo tema da conversa.

Liévin costumava encontrar nas revistas os artigos que eram objeto do debate e os lia, se interessava por eles como um aprimoramento das bases das ciências naturais, que conhecera quando estudante universitário, mas nunca relacionava as teses científicas sobre a origem do homem como animal, sobre os reflexos, sobre a biologia e sobre a sociologia, com as questões a respeito do significado da vida e da morte para ele mesmo, que nos últimos tempos lhe vinham ao pensamento de modo cada vez mais frequente.

Ouvindo a conversa entre o irmão e o professor, notou que ambos associavam questões científicas a questões do espírito, em certos momentos quase penetravam nas questões do espírito, mas toda vez, tão logo se aproximavam do que lhe parecia o mais importante, imediatamente recuavam às pressas e de novo se afundavam no terreno das sutis subdivisões, ressalvas, citações, alusões, referências a autoridades, e era difícil para Liévin entender o que se discutia.

– Não posso admitir – falou Serguei Ivánovitch, com a clareza, a precisão de linguagem e a elegância de dicção que lhe eram habituais –, não posso, de maneira alguma, concordar com Keiss em que toda a minha representação do mundo exterior adveio de impressões. A própria noção da existência, a mais fundamental de todas, não me foi transmitida por via das sensações, porquanto não há um órgão especial para perceber essa noção.

– Sim, mas eles, Wurst e Knaust, e também Pripássov, responderiam ao senhor que a sua consciência da existência advém do conjunto de todas as sensações, que essa consciência da existência é resultado da sensação. Wurst até afirma diretamente que, se não houver sensação, tampouco haverá noção de existência.

– Eu afirmo o contrário – começou Serguei Ivánovitch…

Mas aqui, de novo, Liévin teve a impressão de que eles, ao se aproximarem do principal, recuavam mais uma vez, e resolveu formular uma pergunta ao professor.

– Portanto, se meus sentimentos forem aniquilados, se meu corpo morrer, não poderá haver absolutamente nenhum tipo de existência? – perguntou.

O professor, com enfado, e com o aspecto de que a interrupção lhe causara uma dor mental, olhou de relance para o estranho questionador, que mais parecia um barqueiro de rio do que um filósofo, e voltou os olhos para Serguei Ivánovitch, como que perguntando: o que dizer a ele? Mas Serguei Ivánovitch, que estava longe de se expressar com o esforço e com a visão unilateral do professor, e que conservava a largueza de pensamento necessária para responder ao professor e, ao mesmo tempo, entender o ponto de vista simples e natural que dera origem à pergunta, sorriu e disse:

– Essa questão, ainda não temos o direito de solucionar…

– Não temos dados – corroborou o professor e prosseguiu seus argumentos. – Não – disse ele. – Assinalo que se, como afirma Pripássov de forma direta, a sensação também se fundamenta na impressão, devemos distinguir rigorosamente esses dois conceitos.

Liévin não escutou mais e esperou que o professor fosse embora.

VIII

Quando o professor saiu, Serguei Ivánovitch voltou-se para o irmão:

– Fico muito contente por você ter vindo. Vai se demorar? Como vai a sua propriedade?

Liévin sabia que os afazeres na propriedade rural pouco interessavam ao irmão mais velho, e que ele lhe perguntava por mera gentileza, e por isso limitou-se a falar da venda do trigo e de dinheiro.

Liévin queria comunicar ao irmão sua intenção de casar-se e queria pedir seu conselho, estava até firmemente resolvido a isso; mas quando o encontrou e acompanhou sua conversa com o professor, quando ouviu, depois disso, o involuntário tom protetor com que o irmão lhe indagou a respeito dos assuntos da propriedade (as terras da mãe não tinham sido divididas e Liévin administrava as partes de ambos), se deu conta de que, por algum motivo, não era capaz de começar a falar sobre a sua decisão de casar-se. Sentia que o irmão não ia encarar a questão da forma como ele desejava.

– E então, como vai o seu ziemstvo? – perguntou Serguei Ivánovitch, que muito se interessava pelos conselhos rurais e lhes atribuía uma grande importância.

– Para dizer a verdade, não sei…

– Mas, como? Você não é membro do conselho?

– Não, já não sou um dos membros; saí – respondeu Konstantin Liévin –, e não vou mais às reuniões.

– Que pena! – exclamou Serguei Ivánovitch, que franziu a testa.

Liévin, para justificar-se, passou a contar o que ocorria nas reuniões em seu distrito.

– Pois é, é sempre assim! – interrompeu-o Serguei Ivánovitch. – Nós, russos, somos sempre assim. Talvez seja também uma característica positiva, a capacidade de enxergar nossos defeitos, mas nós exageramos, nos consolamos com ironias, que trazemos sempre na ponta da língua. Pois eu lhe digo uma coisa, dê esses mesmos direitos que têm os nossos conselhos rurais a outro povo europeu, aos alemães ou aos ingleses, e eles abririam seu caminho rumo à liberdade, mas nós, tudo o que fazemos é zombar.

– Mas, o que fazer? – perguntou Liévin, culpado. – Foi minha última experiência. E eu me empenhei de corpo e alma. Não consigo. Sou incapaz.

– Não é incapaz – disse Serguei Ivánovitch. – Não deve encarar a questão desse modo.

– Talvez – respondeu, desalentado.

– Ah, você sabia que nosso irmão Nikolai está de novo aqui?

Nikolai era o irmão consanguíneo mais velho de Konstantin Liévin e meio-irmão de Serguei Ivánovitch, homem arruinado que esbanjara a maior parte da sua fortuna, frequentava o ambiente social mais estranho e degradante e se inimizara com os irmãos.

– O que está dizendo? – exclamou Liévin, estarrecido. – Como sabe?

– Prokófi o viu na rua.

– Aqui, em Moscou? Onde está ele? Você sabe? – Liévin ergueu-se da cadeira como se tencionasse ir até lá imediatamente.

– Lamento ter falado sobre isso com você – disse Serguei Ivánovitch, balançando a cabeça, ante a agitação do irmão mais novo. – Mandei descobrir onde mora e lhe enviei a nota promissória que ele devia a Trubin, e que eu paguei. Eis o que me respondeu.

Serguei Ivánovitch entregou ao irmão um bilhete que estava sob um peso de papéis.

Liévin leu, na estranha caligrafia que já lhe era familiar: “Peço encarecidamente que me deixem em paz. É só o que exijo de meus caros irmãos. Nikolai Liévin”.

Liévin leu e, sem levantar a cabeça, com o bilhete nas mãos, permaneceu parado diante de Serguei Ivánovitch.

Na sua alma, lutavam o desejo de esquecer o irmão infeliz e a consciência de que isso seria condenável.

– Ao que parece, ele quer me ofender – prosseguiu Serguei Ivánovitch –, mas não pode me ofender, e eu, com toda a minha alma, gostaria de ajudá-lo, mas sei que é impossível.

– Sim, sim – disse Liévin. – Compreendo e aprecio a sua atitude com ele; mas irei ao seu encontro.

– Se quiser, vá, mas não aconselho – disse Serguei Ivánovitch. – No que me diz respeito, nada temo, ele não fará você se indispor contra mim; mas, quanto a você, meu conselho é que é melhor não ir. É impossível ajudar. No entanto, faça como quiser.

– Talvez seja impossível ajudar, mas sinto, sobretudo neste momento… mas isso já é outro assunto… sinto que não poderei ficar em paz.

– Bem, isso eu já não compreendo – disse Serguei Ivánovitch. – Mas uma coisa eu compreendo – acrescentou ele. – Isso é uma lição de humildade. Passei a encarar de outro modo, com mais indulgência, o que chamam de infâmia, depois que o irmão Nikolai se tornou o que é… Você sabe o que ele fez…

– Ah, é horrível, horrível! – repetiu Liévin.

Depois de receber do criado de Serguei Ivánovitch o endereço do irmão, Liévin dispôs-se a ir imediatamente ao seu encontro, mas, pensando melhor, decidiu adiar sua visita para a noite. Antes disso, a fim de garantir a tranquilidade de espírito, precisava resolver o assunto que o trouxera a Moscou. Da casa do irmão, Liévin seguiu para a repartição de Oblónski e, após informar-se a respeito dos Cherbátski, foi para o local onde lhe disseram que poderia encontrar Kitty.

IX

Às quatro horas, sentindo o coração bater, Liévin desceu de uma sege de aluguel diante do Jardim Zoológico e seguiu por uma vereda na direção dos montes de neve, rumo ao rinque de patinação, sabendo que provavelmente a encontraria lá, porque vira a carruagem dos Cherbátski na entrada.

Fazia um dia claro e gélido. Na entrada, dispostos em filas, estavam carruagens, trenós, cocheiros e guardas. Pessoas distintas, com chapéus que rebrilhavam ao sol claro, fervilhavam na entrada e nas veredas varridas, entre casinhas típicas russas com enfeites entalhados; as velhas bétulas frondosas do jardim, com todos os ramos curvados devido ao peso da neve, pareciam revestidas de novos paramentos solenes.

Ele seguiu pela vereda rumo ao rinque e dizia consigo: “É preciso não se perturbar. O que há? O que tem você? Cale-se, idiota”, dizia para o seu coração. E quanto mais tentava acalmar-se, mais a falta de ar o sufocava. Um conhecido passou por ele e o cumprimentou, mas Liévin nem o reconheceu. Seguiu rumo aos montes de neve, onde se ouvia o estrépito das correntes que içavam e soltavam os pequenos trenós, os montes nos quais os pequenos trenós zuniam ao deslizar pela neve e onde ressoavam as vozes alegres. Liévin avançou mais alguns passos, à sua frente surgiu a pista e imediatamente, entre todos os que patinavam, ele a reconheceu.

Reconheceu que ela estava ali pela alegria e pelo terror que se apoderaram do seu coração. Ela estava parada, conversando com uma senhora, na extremidade oposta do rinque. Nada parecia haver de especial em sua vestimenta, nem em sua atitude; mas, para Liévin, foi tão fácil reconhecê-la na multidão, como uma rosa nas urtigas. Por sua causa, tudo se iluminava. Ela era um sorriso que irradiava luz em tudo, ao redor. “Será que vou conseguir chegar até lá, sobre o gelo, e aproximarme dela?”, pensou. O lugar onde estava Kitty lhe parecia um santuário inacessível, e houve um momento em que Liévin quase fugiu, tamanho era o seu pavor. Teve de fazer um esforço contra si mesmo e convencer-se de que, em torno dela, havia todo tipo de gente e que também ele poderia ir até lá, para andar de patins. Desceu, evitando por longo tempo olhar para Kitty, como se evita olhar para o sol, mas a via, como se vê o sol, sem olhar.

Nesse dia da semana e nessa hora do dia, reuniam-se no gelo pessoas de um mesmo círculo, todas conhecidas. Estavam ali ases da patinação que exibiam sua arte, aprendizes, atrás das cadeiras, com expressões tímidas e embaraçadas, meninos e velhos que patinavam por razões terapêuticas; a Liévin, todos pareciam uns felizardos porque estavam ali, perto dela. Todos que patinavam pareciam passar por Kitty com absoluta indiferença, a alcançavam, até mesmo falavam com ela e, com total independência, divertiam-se longe dela, aproveitando o gelo excelente e o tempo propício.

Nikolai Cherbátski, primo de Kitty, de jaqueta curta e calças estreitas, estava sentado num banco, de patins nos pés, e ao ver Liévin gritou para ele:

– Ei, o melhor patinador da Rússia! Chegou há muito tempo? O gelo está ótimo, calce os patins.

– Não tenho patins – respondeu Liévin, surpreendendo-se com sua coragem e com seu desembaraço em presença de Kitty, e sem a perder de vista nem por um segundo, embora não olhasse para ela. Sentiu que o sol se aproximava. Ela estava num canto e, depois de calçar frouxamente os pezinhos estreitos nas botinas, deslizava com aparente timidez na direção de Liévin. Um menino em trajes russos, que abanava os braços em desespero, curvado para o solo, a ultrapassou. Kitty patinava sem nenhuma firmeza; mantinha as mãos de prontidão, fora do pequeno regalo de peles pendurado numa cordinha e, olhando para Liévin, que ela havia reconhecido, sorria para ele e também para o seu próprio medo. Quando a curva terminou, ela tomou impulso com o pezinho elástico e deslizou direto até Cherbátski; e, depois de agarrar-se ao braço dele, sorrindo, cumprimentou Liévin. Estava mais linda do que ele a havia imaginado.

Quando pensava nela, conseguia representá-la de forma viva e por inteiro, sobretudo o encanto daquela cabecinha loura, pousada com tamanho desembaraço entre os ombros esbeltos de menina, com uma expressão infantil de clareza e de bondade. A infantilidade da expressão do seu rosto somada à fina beleza do talhe compunha sua graça peculiar, de que Liévin se lembrava muito bem; mas o que sempre causava surpresa era a expressão de seus olhos, dóceis, calmos e sinceros, e em especial do seu sorriso, que sempre transportava Liévin para um mundo mágico, onde ele se sentia enternecido e plácido, como podia recordar-se em raros dias da primeira infância.

– Há muito que o senhor está aqui? – perguntou ela, lhe dando a mão. – Muito obrigada – acrescentou, quando Liévin ergueu o lenço que caíra do seu regalo.

– Eu? Há pouco tempo, ontem… quer dizer, cheguei hoje mesmo – respondeu Liévin, que, de emoção, não entendeu de imediato a pergunta. – Eu pretendia ir à casa da senhorita – disse ele e, no mesmo instante, ao recordar com que intuito a procurava, perturbou-se e ruborizou-se. – Eu não sabia que a senhorita patinava no rinque, e como patina bem.

Ela fitou-o com atenção, como se tentasse compreender a causa de sua perturbação.

– Tenho de dar valor a esse elogio. Aqui, vigora a tradição de que o senhor é o melhor de todos os patinadores – disse ela enquanto, com a mãozinha envolta por uma luva negra, sacudia as agulhas de gelo que haviam caído sobre o regalo.

– Sim, tempos atrás, eu patinava com paixão; queria alcançar a perfeição.

– O senhor, ao que parece, faz tudo com paixão – disse, sorrindo. – Eu tinha muita vontade de ver como o senhor patina. Calce os patins e vamos patinar juntos.

“Patinar juntos! Será possível?”, pensou Liévin, olhando para ela.

– Vou me calçar num instante – disse ele.

E foi calçar os patins.

– Faz muito tempo que o senhor não aparece, patrão – disse o encarregado da pista, segurando o pé de Liévin e apertando o tacão do patim. – Nenhum dos fidalgos é um mestre à altura do senhor. Será que assim está bom? – perguntou, puxando a correia.

– Está bem, está bem, depressa, por favor – respondeu Liévin, reprimindo com esforço o sorriso de felicidade que tomou involuntariamente o seu rosto. “Sim”, pensou, “isto é vida, isto é felicidade! Juntos, disse ela, vamos patinar juntos. Devo falar com ela agora? Mas tenho medo de falar porque agora estou feliz, feliz, ainda que só de esperança… E então?… Mas é preciso! É preciso! Fora, fraqueza!”

Liévin se pôs de pé, tirou o casaco e, depois de tomar impulso no gelo áspero, junto ao pavilhão, saiu veloz para o gelo liso e deslizou sem esforço, como se acelerasse, retardasse ou mudasse de direção unicamente pela sua vontade. Aproximou-se dela com timidez, mas de novo o sorriso de Kitty o tranquilizou.

Ela lhe deu a mão e os dois seguiram lado a lado, aumentando a velocidade e, quanto mais rápido, mais forte ela apertava a mão de Liévin.

– Com o senhor, eu aprenderia mais depressa; por algum motivo, sinto-me segura ao seu lado – disse ela.

– E eu me sinto mais seguro de mim mesmo quando a senhorita se apoia em mim – disse ele, mas no mesmo instante se assustou com o que dizia, e ruborizou-se. De fato, subitamente, tão logo pronunciou essas palavras, como se o sol se ocultasse atrás de uma nuvem, o rosto de Kitty perdeu toda ternura e Liévin percebeu nela o conhecido movimento de fisionomia que denotava um esforço de pensamento: na testa lisa, uma ruguinha intumescera.

– Alguma coisa a aborreceu? Na verdade, não tenho o direito de perguntar – emendou ele, depressa.

– Por quê?… Não, nada me aborreceu – respondeu Kitty friamente e acrescentou, ligeiro: – O senhor não viu a mademoiselle Linon?

– Ainda não.

– Vá falar com ela. Gosta tanto do senhor.

“O que há? Eu a ofendi. Meu Deus, me ajude!”, pensou Liévin e seguiu ligeiro na direção da velha francesa, de madeixas grisalhas, que estava sentada num banco. Sorrindo e pondo à mostra seus dentes postiços, ela o recebeu como a um velho amigo.

– Ora, como estamos crescendo – disse para Liévin, apontando para Kitty com os olhos – e ficando mais velhos. O tiny bear [6] já ficou grande! – prosseguiu a francesa, rindo, e recordou o gracejo de Liévin sobre as três jovens irmãs, que ele chamava de três ursos, como no conto infantil inglês. – Lembra como o senhor dizia?

Liévin, positivamente, não se lembrava, mas já havia dez anos que ela ria desse gracejo e o adorava.

– Bem, agora vá, vá patinar. A nossa Kitty aprendeu a patinar muito bem, não é mesmo?

Quando Liévin se aproximou novamente de Kitty, sua fisionomia já não estava severa, os olhos fitavam com sinceridade e ternura, mas Liévin teve a impressão de que em sua ternura havia um tom peculiar, de uma calma premeditada. E entristeceu. Depois de falar a respeito da sua velha preceptora e de suas extravagâncias, Kitty interrogou Liévin sobre a sua vida.

– O senhor não acha enfadonho passar o inverno no campo? – perguntou.

– Não, não acho enfadonho, ando sempre muito ocupado – respondeu, percebendo que ela começava a sujeitá-lo ao seu tom calmo, do qual Liévin não teria forças para escapar, a exemplo do que ocorrera no início do inverno.

– O senhor vai ficar aqui muito tempo? – perguntou Kitty.

– Não sei – respondeu, sem pensar no que dizia. Veio-lhe a ideia de que, caso não resistisse a esse tom de amizade serena, acabaria por ir embora novamente sem nada resolver, e decidiu rebelar-se.

– Como não sabe?

– Não sei. Depende da senhorita – disse ele, e imediatamente se apavorou com as próprias palavras.

Kitty ou não ouviu as palavras dele, ou não quis ouvir, no entanto pareceu tropeçar, esbarrando com o pezinho duas vezes no chão, e patinou depressa para longe de Liévin. Patinou na direção de mademoiselle Linon, disse-lhe algo e seguiu para o pavilhão onde as senhoras descalçavam os patins.

“Meu Deus, o que fiz! Santo Deus! Ajude-me, dê-me uma luz”, disse Liévin, numa reza, mas ao mesmo tempo sentiu a necessidade de um movimento enérgico e patinou em velocidade, descrevendo círculos para fora e para dentro.

Nesse momento, um dos jovens, o melhor dos novos patinadores, com um cigarro na boca e de patins, saiu da cafeteria e, depois de tomar impulso, lançou-se escada abaixo, pelos degraus, aos saltos e com estrépito. Voou para a pista e, sem sequer mudar a posição natural da mão, saiu a patinar sobre o gelo.

– Ah, um truque novo! – exclamou Liévin e, na mesma hora, correu para cima, a fim de executar o novo truque.

– Não vá se machucar, é preciso ter prática! – gritou-lhe Nikolai Cherbátski.

Liévin chegou à beira da escada, tomou impulso o mais que pôde e lançou-se para baixo, mantendo, com ajuda das mãos, o equilíbrio no movimento a que não estava habituado. No último degrau, tropeçou mas, apenas roçando o gelo com a mão, fez um movimento enérgico, corrigiu a posição do corpo e, rindo, saiu a patinar para a frente.

“Que ótimo rapaz”, pensou Kitty nesse momento, ao deixar o pavilhão ao lado de mademoiselle Linon e olhando para ele com um sereno sorriso de ternura, como se fosse um irmão querido. “Não serei culpada de alguma coisa? Não terei feito algo errado? Vão dizer: são artimanhas para seduzir. Sei que não é ele que eu amo; mas, mesmo assim, sinto-me alegre com ele, e é tão simpático. Mas por que falou aquilo?…”, pensava.

Ao ver que Kitty se retirava e que a mãe ia ao encontro dela na beira da escada, Liévin, ruborizado após os movimentos rápidos que fizera, parou e refletiu. Descalçou os patins e alcançou a mãe e a filha na saída do jardim.

– Estou muito feliz em vê-lo – disse a princesa. – Às terças-feiras, como sempre, recebemos em nossa casa.

– Quer dizer, hoje?

– Ficaríamos muito felizes em ver o senhor – falou a princesa, com secura.

A secura desgostou Kitty e ela não conseguiu reprimir o desejo de remediar a frieza da mãe. Virou a cabeça e, com um sorriso, disse:

– Até logo mais.

Nessa altura, Stiepan Arcáditch, com o gorro de lado, o rosto e os olhos radiantes, adentrou o jardim com ar vitorioso e alegre. Mas, ao aproximar-se da sogra, assumiu uma fisionomia triste e culpada, para responder suas perguntas sobre a saúde de Dolly. Depois de falar baixo e desalentado com a sogra, aprumou o peito e tomou Liévin pelo braço.

– E então, vamos lá? – perguntou. – Não parei de pensar em você e estou muito contente de você ter vindo – disse, fitando-o nos olhos de modo expressivo.

– Vamos, vamos, sim – respondeu Liévin, feliz, ouvindo sem cessar o som da voz que lhe dissera: “Até logo mais”, e vendo o sorriso que acompanhara essas palavras.

– Ao restaurante Inglaterra ou ao Ermitage?

– Por mim, tanto faz.

– Bem, então, vamos ao Inglaterra – disse Stiepan Arcáditch, escolhendo o Inglaterra porque, lá, estava mais endividado do que no Ermitage. Em consequência, julgava impróprio evitar esse restaurante. – Você está com uma carruagem de aluguel? Ótimo, pois dispensei minha carruagem.

Por todo o trajeto, os amigos ficaram em silêncio. Liévin pensava no que poderia significar aquela mudança de expressão no rosto de Kitty e, ora se persuadia de que havia esperança, ora caía em desespero e via claramente que sua esperança era insensata, e no entanto sentia-se um novo homem, em nada parecido com o que fora, antes do sorriso de Kitty e de suas palavras de despedida.

Stiepan Arcáditch, durante o caminho, compunha o cardápio.

– Você gosta de linguado? – perguntou para Liévin, ao desembarcar.

– O quê? – perguntou Liévin. – Linguado? Sim, adoro linguado.

X

Quando Liévin entrou no restaurante com Oblónski, não pôde deixar de perceber uma expressão singular, como que um esplendor contido, no rosto e em toda a pessoa de Stiepan Arcáditch. Oblónski tirou o casaco e, com o gorro de lado sobre a cabeça, percorreu o salão, distribuindo ordens aos garçons tártaros que se grudavam a ele, todos de fraque e de guardanapo em punho. Inclinando-se para a direita e para a esquerda, em cumprimento aos conhecidos que encontrava, ali também, como em toda parte, muito alegres em revê-lo, aproximou-se do bufê, serviu-se de vodca e peixe e disse para a jovem francesa maquiada, de fitinhas, rendas e caracóis, sentada atrás da mesa da recepção, algo que a fez rir com sinceridade. Liévin não bebeu vodca só porque lhe era ultrajante aquela francesa, toda composta artificialmente, ao que parecia, com cabelos postiços, poudre de riz e vinaigre de toilette.[7] Afastou-se dela às pressas, como que de um lugar imundo. Sua alma estava transbordante com a lembrança de Kitty e em seus olhos brilhava um sorriso de felicidade e de triunfo.

– Por aqui, Vossa Excelência, por favor, aqui não incomodarão Vossa Excelência – disse um velho tártaro, especialmente pegajoso, de cabeça esbranquiçada e com um quadril tão largo que abria para os lados as abas do fraque. – Por favor, Vossa Excelência – disse para Liévin, como um sinal de deferência a Stiepan Arcáditch, ao também dar atenção ao seu convidado.

Depois de estender uma toalha limpa sobre uma mesa redonda, já coberta por outra toalha e sob um candelabro de bronze, ele aproximou cadeiras de veludo e postou-se diante de Stiepan Arcáditch com um guardanapo e um cartão nas mãos, à espera dos pedidos.

– Se Vossa Excelência ordenar, um compartimento privado estará à disposição em poucos minutos: o príncipe Golítsin, com uma senhora. Recebemos ostras frescas.

– Ah! Ostras.

Stiepan Arcáditch refletiu.

– Que tal mudar de planos, Liévin? – disse ele, com o dedo pousado sobre o cardápio. E seu rosto expressava uma grave indecisão. – Será que as ostras estão mesmo boas? Veja lá, hem!

– São de Flensburg, Vossa Excelência. De Ostend, não temos.

– Que sejam de Flensburg ou de qualquer outro lugar, mas estão frescas?

– Recebemos ontem, senhor.

– Pois bem, que tal começar com ostras e depois mudar todo o nosso plano? Hem?

– Para mim, tanto faz. Do que mais gosto é de sopa de repolho e papa de cereais; mas aqui não devem ter isso.

– O senhor quer pedir kacha à la russe? – perguntou o tártaro, como uma babá a uma criança, curvando-se para Liévin.

– Não, sem brincadeira, o que você escolher estará bem para mim. Andei de patins e quero comer. E não pense – acrescentou, depois de notar no rosto de Oblónski um certo descontentamento – que não dou valor à sua escolha. Comerei com todo o prazer.

– Ora, mas é claro! Pois, digam o que disserem, isto é um dos prazeres da vida – respondeu Stiepan Arcáditch. – Pois bem, sirva-nos, meu irmão, vinte ostras, ou melhor, trinta, e sopa de legumes…

– Printanière – emendou o tártaro. Mas Stiepan Arcáditch, pelo visto, não queria lhe dar o prazer de denominar os pratos em francês.

– Com legumes, entende? Depois, linguado ao molho grosso, depois… rosbife; mas cuide para que fique bem passado. Depois, frango e quem sabe umas frutas em conserva.

O tártaro, lembrando que Stiepan Arcáditch não denominava os pratos segundo o cardápio francês, não repetiu o pedido em voz alta, mas deu a si mesmo o prazer de repetir em pensamento o que dizia o cardápio: “Sopa printanière, linguado ao molho Beaumarchais, poulard à l’estragon, macèdoine de fruits…”, e no mesmo instante, como que impelido por molas, fechou um cardápio encadernado, apanhou outro, o de vinhos, e o ofereceu a Stiepan Arcáditch.

– O que vamos beber?

– Eu quero só um pouco de champanhe – respondeu Liévin.

– Como? Para começar? Pensando bem, por que não? Você prefere o de selo branco?

– Cachet blanc – emendou o tártaro.

– Pois bem, então nos traga um dessa marca, junto com as ostras, e depois veremos.

– Perfeitamente, senhor. E o vinho de mesa, qual vai pedir?

– Traga o Nuit. Não, é melhor o clássico Chablis.

– Perfeitamente, senhor. Vai pedir o queijo do senhor?

– Bem, sim, o parmesão. Ou você prefere um outro?

– Não, para mim tanto faz – disse Liévin, sem conseguir conter um sorriso.

O tártaro se retirou, com as abas do fraque abertas para os lados por cima dos quadris largos e, após cinco minutos, reentrou ligeiro, com uma travessa de ostras, já abertas, em conchas de madrepérola e com uma garrafa presa entre os dedos.

Stiepan Arcáditch amarrotou um guardanapo engomado, enfiou-o por dentro do colete e, depois de apoiar os braços de maneira confortável, passou a ocupar-se das ostras.

– Ah, nada mau – disse ele, enquanto extraía as ostras das conchas de madrepérola com a ajuda de um garfinho de prata e engolia uma após a outra. – Nada mau – repetiu, levantando os olhos úmidos e reluzentes, ora para Liévin, ora para o tártaro.

Liévin também comeu as ostras, embora preferisse o queijo e o pão branco. Mas olhava para Oblónski com admiração. Até o tártaro, que havia retirado a rolha de cortiça e servira o vinho espumante em finos cálices bisotados, contemplava Stiepan Arcáditch com um flagrante sorriso de prazer, enquanto ajeitava sua gravata branca.

– Você não gosta muito de ostras, não é? – disse Stiepan Arcáditch, bebendo da sua taça. – Ou está preocupado? Hem?

Queria que Liévin ficasse alegre. Mas Liévin, em vez de alegre, sentia-se constrangido. Por causa daquilo que trazia na alma, era horroroso e incômodo, para ele, estar ali no restaurante, em meio a compartimentos privativos onde homens jantavam em companhia de senhoras, e cercado por tamanha agitação e rebuliço; os adornos de bronze, os espelhos, as lâmpadas a gás, os tártaros – tudo, para ele, era ultrajante. Temia manchar aquilo que inundava sua alma.

– Eu? Sim, estou preocupado; além do mais, tudo isto me deixa constrangido – respondeu. – Você não pode imaginar como, para mim, um homem do campo, tudo isto parece absurdo, como as unhas daquele cavalheiro que encontrei com você…

– Sim, notei que as unhas do pobre Griniêvitch despertaram um grande interesse em você – disse Stiepan Arcáditch, sorrindo.

– Não consigo – respondeu Liévin. – Tente pôr-se no meu lugar, colocar-se no ponto de vista de um homem do campo. Nós, no campo, tentamos manter as mãos em condições adequadas para trabalhar; por isso, cortamos as unhas, às vezes arregaçamos as mangas. Mas aqui as pessoas deixam as unhas crescer, de propósito, o mais que podem, e engancham nos punhos abotoaduras que mais parecem pires, de tal modo que não é possível fazer nada com as mãos.

Stiepan Arcáditch sorriu, alegre.

– Sim, é um sinal de que ele não precisa executar nenhum trabalho rude. Trabalha com a inteligência…

– Pode ser. No entanto, para mim, é um absurdo, assim como é um absurdo o que fazemos agora, pois nós, pessoas do campo, tentamos terminar de comer o mais rápido possível, para estarmos logo em condições de fazer o nosso serviço, ao passo que nós dois tentamos adiar ao máximo o fim da refeição e, para isso, comemos ostras…

– Ora, mas é claro – emendou Stiepan Arcáditch. – Este é o propósito da educação: fazer de tudo um prazer.

– Bem, se o propósito é este, prefiro ser um selvagem.

– E você é um selvagem… Todos vocês, os Liévin, são uns selvagens.

Liévin suspirou. Lembrou-se do irmão Nikolai e sentiu-se envergonhado e triste, e franziu o rosto; mas Oblónski passou a falar de um assunto que, no mesmo instante, prendeu sua atenção.

– E então, iremos esta noite à casa dos nossos amigos, os Cherbátski? – perguntou ele, com um brilho expressivo nos olhos, enquanto afastava para o lado as ásperas conchas vazias e puxava o queijo para perto.

– Sim, irei sem falta – respondeu Liévin. – Embora eu tenha a impressão de que a princesa me convidou a contragosto.

– Como? Mas que disparate! É o jeito dela… Vamos lá, sirva a sopa, irmão!… É o jeito dela, a grande dame – disse Stiepan Arcáditch. – Irei também, mas preciso ir a um sarau na casa da condessa Bánina. Mas, ora, não é você um selvagem, de fato? Senão, me explique por que sumiu de Moscou, de repente? Os Cherbátski me perguntavam por você o tempo todo, como se eu devesse saber. Mas só sei uma coisa: você sempre faz o que ninguém mais fará.

– Sim – disse Liévin, devagar e com emoção. – Você está certo, sou um selvagem. Mas a minha selvageria não está no fato de eu ter ido embora, mas de eu agora ter vindo. Eu vim, agora.

– Ah, que felizardo é você! – exclamou Stiepan Arcáditch, fitando os olhos de Liévin.

– Por quê?

– Pelas marcas a ferro, reconheço um cavalo de brio; pelos olhos, reconheço um jovem apaixonado[8] – recitou Stiepan Arcáditch. – Você tem tudo à sua frente.

– E você já tem tudo às suas costas?

– Não, às costas, não, mas você tem o futuro, enquanto eu tenho o presente, e ele não é nada formidável.

– O que há?

– As coisas vão mal. Mas eu quero falar sobre você e, além do mais, é impossível explicar tudo – disse Stiepan Arcáditch. – E então, por que você veio a Moscou?… Ei, recolha os pratos! – gritou para o tártaro.

– Você não adivinha? – perguntou Liévin, sem desviar de Stiepan Arcáditch seus olhos, que brilhavam no fundo.

– Adivinho, mas não consigo tomar a iniciativa de falar sobre o assunto. Já por isso você pode avaliar se eu adivinho corretamente ou não – disse Stiepan Arcáditch, fitando Liévin com um sorriso sutil.

– Pois bem, e o que você me diz? – perguntou Liévin, com voz trêmula e sentindo que todos os músculos do rosto tremiam. – Como você encara a questão?

Stiepan Arcáditch sorveu lentamente até o fim seu copo de Chablis, sem desviar seus olhos de Liévin.

– Eu? – disse Stiepan Arcáditch. – Não há nada que eu mais deseje, nada. Seria a melhor coisa que poderia acontecer.

– Mas você não estará enganado? Sabe do que estamos falando? – perguntou Liévin, cravando os olhos no seu interlocutor. – Acha possível?

– Acho possível. Por que não seria?

– Não, você acha realmente possível? Não, diga-me o que você pensa! Puxa, e se o que me espera for uma recusa?… Eu até estou convencido…

– Por que pensa tal coisa? – disse Stiepan Arcáditch, sorrindo da agitação de Liévin.

– Às vezes tenho essa impressão. Seria horrível para mim e também para ela.

– Ora, de um jeito ou de outro, não há nisso nada de horrível, para uma jovem. Qualquer moça se orgulha de receber uma proposta de casamento.

– Sim, qualquer moça, mas não ela.

Stiepan Arcáditch sorriu. Conhecia muito bem esse sentimento de Liévin, sabia que, para ele, todas as moças do mundo se distribuíam em dois tipos: um tipo era o de todas as moças do mundo, exceto ela, e essas moças tinham todas as fraquezas humanas, eram moças muito comuns; o outro tipo era formado só por ela, que não tinha nenhuma fraqueza e se colocava acima de todos os seres humanos.

– Espere, prove o molho – disse ele, segurando a mão de Liévin, que empurrava o molho para trás.

Liévin, dócil, serviu-se do molho, mas não deixou Stiepan Arcáditch comer em paz.

– Não, espere você – disse ele. – Entenda que, para mim, se trata de uma questão de vida ou morte. Nunca falei com ninguém sobre isso. E não consigo falar com ninguém sobre o assunto, como falo com você. Não há dúvida que somos, nós dois, diferentes em tudo: no gosto, na maneira de ver, em tudo; mas sei que você gosta de mim e me compreende e por isso eu gosto terrivelmente de você. Mas, pelo amor de Deus, seja totalmente sincero.

– Vou lhe dizer o que penso – respondeu Stiepan Arcáditch, sorrindo. – Mas vou lhe dizer outra coisa: minha esposa, mulher admirabilíssima… – Stiepan Arcáditch suspirou, ao pensar em suas relações com a esposa e, depois de calar-se por um minuto, prosseguiu: – Ela tem o dom da previsão. Enxerga através das pessoas; mas não é só isso. Ela sabe o que vai acontecer, em especial no tocante a casamentos. Por exemplo, ela previu que Chakhóvskaia se casaria com Brenteln. Ninguém quis acreditar, mas aconteceu. E ela está do seu lado.

– Como assim?

– Ela não só gosta de você, como diz que Kitty será sua esposa, inapelavelmente.

Ao ouvir essas palavras, o rosto de Liévin de repente iluminou-se num sorriso, à beira das lágrimas de ternura.

– Ela pensa isso! – exclamou Liévin. – Eu sempre disse que a sua esposa era excelente. Mas, basta, basta de falar sobre esse assunto – disse, levantando-se da cadeira.

– Está bem, mas vamos sentar.

Entretanto Liévin não conseguia ficar sentado. Percorreu duas vezes, com suas passadas firmes, o cubículo à semelhança de uma jaula, enquanto piscava os olhos para que não se notassem as lágrimas e, só depois, sentou-se de novo à mesa.

– Entenda bem – disse ele –, isso não é amor. Eu já estive apaixonado, mas isso não é a mesma coisa. Não se trata de um sentimento meu, mas de uma força exterior que se apoderou de mim. Veja, eu fugi porque decidi que tal coisa não poderia acontecer, entende, como uma felicidade que não pode existir na Terra; mas lutei contra mim mesmo e vejo que sem isso não existe vida. E é preciso resolver…

– Para que você foi embora?

– Ah, espere! Ah, quantos pensamentos! Quanta coisa é preciso perguntar! Escute. Você nem pode imaginar o que fez por mim com isso que falou, agora. Estou tão feliz que até me tornei um canalha; esqueci tudo… Hoje mesmo, eu soube que meu irmão Nikolai… Você sabia que ele está aqui?… Eu me esqueci dele. Parece-me que ele também está feliz. É uma espécie de loucura. Mas há algo horroroso… Veja, você se casou, conhece este sentimento… É horrível que nós, velhos, já com um passado… não de amor, mas de pecados… de repente nos aproximemos de uma criatura pura, inocente; é abominável e por isso é impossível não se sentir indigno.

– Ora, você tem poucos pecados.

– Ah, mesmo assim – respondeu Liévin –, mesmo assim, “lendo minha vida com repugnância, estremeço e me curvo, e me lamento amargamente…”.[9] Sim.

– O que fazer, o mundo é assim – disse Stiepan Arcáditch.

– O consolo, como naquela prece de que sempre gostei, está em que posso ser perdoado não pelos meus méritos, mas por misericórdia. Desse modo, também ela pode perdoar…

XI

Liévin bebeu até o fim sua taça e os dois ficaram calados.

– Há uma coisa que ainda preciso lhe dizer. Conhece Vrónski? – perguntou Stiepan Arcáditch para Liévin.

– Não, não conheço. Por que pergunta?

– Traga mais uma – pediu Stiepan Arcáditch para o tártaro, que enchia as taças e girava em torno deles, sobretudo quando sua presença não era necessária.

– Por que eu deveria conhecer Vrónski?

– Você deveria conhecer Vrónski porque ele é um dos seus rivais.

– Quem é esse tal de Vrónski? – perguntou Liévin, e seu rosto passou repentinamente daquela expressão de entusiasmo infantil, que pouco antes provocara a admiração de Oblónski, para um aspecto de raiva e contrariedade.

– Vrónski é um dos filhos do conde Kiril Ivánovitch Vrónski e um dos mais perfeitos exemplares da juventude dourada de Petersburgo. Eu o conheci em Tvier, quando lá estive a serviço, e ele veio para o alistamento de recrutas. Terrivelmente rico, bonito, muito bem relacionado, ajudante de campo e, além do mais, um rapaz muito bom e gentil. Porém é mais do que apenas um bom rapaz. Como pude perceber lá, é também instruído e muito inteligente; um homem que irá longe.

Liévin franziu as sobrancelhas e ficou em silêncio.

– Pois bem, ele apareceu por aqui logo depois de você e, pelo que entendi, apaixonou-se perdidamente por Kitty, e você compreende que a mãe…

– Desculpe, mas não compreendo nada – disse Liévin, de cara fechada e sombria. E, no mesmo instante, se lembrou do irmão Nikolai e de como era um canalha por ser capaz de esquecê-lo.

– Espere, espere aí – disse Stiepan Arcáditch, sorrindo e tocando na mão do amigo. – Eu contei o que sei e repito que, até onde é possível adivinhar nesse assunto delicado e sutil, me parece que as chances estão a seu favor.

Liévin recostou-se para trás, na cadeira, com o rosto pálido.

– Mas eu o aconselharia a resolver o assunto o mais rápido possível – prosseguiu Oblónski, enchendo a taça do amigo.

– Não, obrigado, não quero beber mais – disse Liévin, empurrando sua taça para trás. – Vou ficar bêbado… Mas, e você, como vai? – prosseguiu, querendo visivelmente mudar de assunto.

– Mais uma coisa: seja como for, recomendo resolver o assunto o mais depressa possível. Não aconselho falar hoje – disse Stiepan Arcáditch. – Vá lá amanhã, de manhã, faça uma proposta de casamento à moda clássica, e que Deus o abençoe…

– E então, continua com vontade de vir caçar nas minhas terras? Venha na primavera – disse Liévin.

Agora, ele já se arrependera, com toda a alma, de ter começado essa conversa com Stiepan Arcáditch. O seu sentimento tão especial fora profanado pela conversa sobre a concorrência de um oficial de São Petersburgo, pelas conjeturas e pelos conselhos de Stiepan Arcáditch.

Stiepan Arcáditch sorriu. Entendia o que se passava no espírito de Liévin.

– Irei algum dia – respondeu. – Mas, meu irmão, as mulheres são a hélice em torno da qual tudo gira. Veja como a minha situação vai mal, muito mal. E tudo por causa de mulheres. Diga-me, com franqueza – prosseguiu, depois de pegar um charuto e segurando a taça com a outra mão. – Dê-me um conselho.

– Mas do que se trata?

– Trata-se do seguinte. Suponha que você é casado, ama sua esposa, mas se apaixonou por outra mulher…

– Desculpe, mas positivamente não compreendo como poderia… do mesmo jeito que não compreendo como eu poderia, agora, depois de ter comido até fartar, passar diante de uma confeitaria e roubar um brioche.

Os olhos de Stiepan Arcáditch brilharam mais do que o habitual.

– Por que não? O brioche às vezes cheira tão bem que a gente não resiste.

Himmlisch ist’s, wenn ich bezwugen

Meine irdische Begier;

Aber noch wenn’s nicht gelungen,

Hatt’ich auch recht hubsch Plaisir![10]

Ao dizer isso, Stiepan Arcáditch sorriu de um modo sutil. Liévin também não pôde deixar de sorrir.

– Sim, mas, sem brincadeira – prosseguiu Oblónski. – Entenda que essa mulher é uma criatura meiga, dócil, amorosa, pobre, solitária e que sacrificou tudo. Agora, quando a coisa já está consumada, entenda bem, será possível abandoná-la? Vamos admitir: é preciso separar-se a fim de não destruir a vida da família; mas será possível não ter pena dela, não a ajudar, não a amparar?

– Bem, me desculpe. Você sabe que, para mim, todas as mulheres se dividem em duas categorias… não é bem isso… melhor dizendo: existem mulheres e existem… Nunca vi nem verei fascínio em criaturas decaídas, e mulheres como a francesa maquiada, na recepção do restaurante, com seus cachinhos, para mim são répteis, e todas as decaídas são assim.

– E a do Evangelho?

– Ah, deixe disso! Cristo jamais diria tais palavras se soubesse como iriam abusar delas. De todo o Evangelho, são as únicas palavras de que as pessoas se lembram. Na verdade, não falo o que penso, mas o que sinto. Tenho repugnância de mulheres decaídas. Você tem medo de aranhas e eu, desses répteis. Você, com certeza, não estudou as aranhas e não conhece os seus hábitos: eu também não.

– Para você, está muito bem falar desse modo; não faz diferença, como para aquele cavalheiro de um livro de Dickens que, com a mão esquerda, jogava por cima do ombro direito todas as questões complicadas. Mas a negação de um fato não é uma resposta. O que fazer, diga-me, o que fazer? A esposa envelhece enquanto você está repleto de vida. Num piscar de olhos, você se dá conta de que não pode mais amar sua esposa com amor, por mais que a estime. E então, de repente, aparece o amor, e você está perdido, perdido! – exclamou Stiepan Arcáditch, com um desespero desconsolado.

Liévin sorriu.

– Sim, está perdido – prosseguiu Oblónski. – Mas, o que fazer?

– Não roubar brioches.

Stiepan Arcáditch deu uma risada.

– Ah, moralista! Mas imagine que há duas mulheres: uma insiste apenas nos seus direitos, e tais direitos são o seu amor, que você já não lhe pode dar; e a outra sacrifica tudo por você, não exige nada. O que fazer? Como agir? Eis o terrível drama.

– Se quer a minha profissão de fé no tocante a isso, direi a você que não acredito que haja aí drama algum. Eis o motivo. Para mim, o amor… os dois amores que, você há de lembrar, Platão distingue no seu Banquete, os dois amores servem como pedra de toque para as pessoas. Um amor, só certas pessoas compreendem; o outro, as demais. E aquelas que só compreendem o amor não platônico não têm motivo para falar em drama. Nesse amor, não pode haver drama algum. “Agradeço imensamente pelo prazer, com os meus respeitos”, e todo o drama não passa disso. No caso do amor platônico, não pode haver drama porque, nesse amor, tudo é claro e puro, porque…

Nesse instante, Liévin lembrou-se de seus pecados e da luta interior que padecera. E, inesperadamente, acrescentou:

– Pensando bem, talvez você tenha razão. É muito provável… Mas não sei, decididamente, eu não sei.

– Aí está, veja só – disse Stiepan Arcáditch –, você é um homem muito íntegro. É a sua qualidade e o seu defeito. Tem um caráter íntegro e quer que toda a vida seja formada de fenômenos íntegros, mas isso não acontece. Você despreza a atividade do serviço público porque deseja que o trabalho sempre corresponda a um fim, e isso não acontece. Quer também que a atividade de um homem sempre tenha um fim, que o amor e a vida em família sejam sempre uma coisa só. E isso não acontece. Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida é feita de sombra e de luz.

Liévin suspirou e nada respondeu. Pensava em si mesmo e não escutava Oblónski.

E de repente os dois se deram conta de que, embora fossem amigos, embora tivessem comido e bebido juntos, o que deveria aproximá-los ainda mais, cada um pensava apenas em si e nada tinha a ver com o outro. Oblónski já experimentara mais de uma vez, após uma refeição, essa dicotomia profunda que sobrevinha em lugar de uma aproximação e sabia o que era preciso fazer nesses casos.

– A conta! – gritou e saiu para a sala vizinha, onde, no mesmo instante, encontrou um ajudante de ordens conhecido seu e entabulou uma conversa sobre uma atriz e o seu protetor. E logo, enquanto conversava com o ajudante de ordens, Oblónski teve uma sensação de alívio e de repouso da conversa com Liévin, que sempre o levava a uma extrema tensão mental e espiritual.

Quando o tártaro apareceu com a conta de vinte e seis rublos, mais uns copeques e os acréscimos pela vodca, Liévin, que em outros tempos, como um homem do interior, ficaria horrorizado diante de uma conta em que sua parte chegava a catorze rublos, agora nem deu atenção a isso, pagou e voltou para casa a fim de trocar de roupa e ir à casa dos Cherbátski, onde se decidiria o seu destino.

XII

A princesa Kitty Cherbátskaia tinha dezoito anos. Era o primeiro inverno em que frequentava a sociedade. Seu sucesso foi maior que o das duas irmãs mais velhas e maior até do que esperava a princesa, sua mãe. Além de quase todos os jovens dançarinos dos bailes de Moscou se apaixonarem por Kitty, já no primeiro inverno se haviam apresentado dois sérios pretendentes: Liévin e, logo depois da sua partida, o conde Vrónski.

O aparecimento de Liévin no começo do inverno, suas visitas frequentes e seu óbvio amor por Kitty deram ensejo à primeira conversa séria entre os pais de Kitty sobre o seu futuro e também a desavenças entre o príncipe e a princesa. O príncipe estava do lado de Liévin, dizia que nada poderia desejar de melhor para Kitty. Já a princesa, de acordo com o hábito peculiar às mulheres de contornar os problemas, disse que Kitty era jovem demais, que Liévin não demonstrava de maneira alguma ter intenções sérias, que Kitty não tinha afeição por ele, e outras razões; mas não dizia o principal, ou seja, que esperava um partido melhor para a filha, que Liévin não lhe agradava e que ela não o compreendia. Quando Liévin partiu de forma abrupta, a princesa sentiu-se contente e falou para o marido, com ar solene: “Viu, eu tinha razão”. Quando surgiu Vrónski, ela ficou ainda mais contente, vendo confirmada sua opinião de que Kitty não devia ter apenas um bom partido, mas sim um magnífico partido.

Para a mãe, nem podia haver comparação entre Liévin e Vrónski. Ela não via com bons olhos as opiniões estranhas e bruscas de Liévin, o seu embaraço na sociedade, cujo motivo, supunha, era o orgulho, e a vida, no seu entender, selvagem que levava no campo, ocupado com animais e com mujiques; também não lhe agradava muito o fato de Liévin, um homem enamorado de sua filha, ter frequentado a casa deles durante um mês e meio como se esperasse alguma coisa, sempre a examinar em redor, como se temesse lhes fazer uma honra excessiva se apresentasse uma proposta de casamento, sem entender que, ao ir assiduamente à casa onde morava uma jovem em idade de casar, era preciso explicar suas intenções. E de repente, sem nada explicar, foi embora. “Ainda bem que era tão pouco atraente que Kitty não se apaixonou por ele”, pensou a mãe.

Vrónski satisfazia todos os desejos da mãe. Muito rico, inteligente, fidalgo, no caminho de uma brilhante carreira militar, e um homem encantador. Não se poderia desejar nada melhor.

Nos bailes, Vrónski cortejava Kitty abertamente, dançava com ela e ia com frequência à sua casa, portanto não se podia pôr em dúvida a seriedade de suas intenções. Apesar disso, a mãe passou todo aquele inverno numa agitação e numa ansiedade terríveis.

A própria princesa casara-se trinta anos antes, com um noivo arranjado pela tia. O noivo, sobre o qual tudo já estava previamente sabido, veio à sua casa, viu a noiva e eles o viram; a tia casamenteira verificou e transmitiu a ambas as partes a impressão produzida; a impressão foi boa; depois, num dia marcado, apresentou-se aos pais a proposta de casamento esperada, e logo foi aceita. Tudo correu de modo bastante tranquilo e simples. Pelo menos, assim pareceu à princesa. Mas, no caso das filhas, ela provava como nada havia de tranquilo e simples nesta tarefa, que parecia corriqueira: casar as filhas. Quantos temores ela padecera, quantos pensamentos remoera, quanto dinheiro gastara, quantas desavenças tivera com o marido em torno da escolha do noivo das filhas mais velhas, Dária e Natália! Agora, ao apresentar à sociedade a filha mais nova, padecia os mesmos temores, as mesmas dúvidas, e tinha brigas com o marido ainda maiores do que no caso das filhas mais velhas. O príncipe, como todos os pais, era especialmente escrupuloso com relação à honra e à pureza das filhas; era insensatamente ciumento das filhas, em especial de Kitty, sua favorita, e a todo momento armava cenas com a princesa, a quem acusava de comprometer a filha caçula. A princesa estava acostumada a isso, desde a primeira filha, mas agora sentia que os escrúpulos do príncipe tinham mais fundamento. Via que nos últimos tempos muita coisa mudara nos costumes da sociedade, que as obrigações da mãe se haviam tornado ainda mais difíceis. Notava que as jovens da idade de Kitty formavam certas associações, frequentavam certos cursos, tratavam os homens com liberdade, andavam sozinhas pela rua, muitas não faziam uma reverência ao cumprimentar e, sobretudo, tinham todas a firme convicção de que cabia a elas, e não aos pais, a escolha do marido. “Hoje em dia, não se casa mais como antes”, pensavam e diziam todas essas jovens e até algumas pessoas mais velhas. No entanto, como se devia casar hoje em dia: eis o que a princesa não conseguia saber de ninguém. O costume francês – o destino da filha resolvido pelos pais – era recusado, e condenado. O costume inglês – a liberdade total das moças – também era recusado, e impossível na sociedade russa. A maneira russa de se arranjar o casamento por meio de casamenteiras era considerada abominável e ridícula, por todos e pela própria princesa. Mas como as filhas se deviam casar e como se devia dar as filhas em casamento, isso ninguém sabia. Todos com quem a princesa pôde conversar a respeito diziam a mesma coisa: “Queira perdoar, mas nesta época em que vivemos já é hora de pôr de lado essas velharias. Afinal, quem se casa são os jovens, e não seus pais; portanto é preciso deixar os jovens se arranjarem como acharem melhor”. Mas era fácil falar assim, para quem não tinha filhas; e a princesa compreendia que, por força da proximidade, Kitty podia apaixonar-se, e apaixonar-se por um homem que não tivesse intenção de casar, ou que não servisse para marido. E por mais que incutissem na princesa a ideia de que, em nosso tempo, os próprios jovens deviam construir o seu destino, ela não era capaz de acreditar nisso, como também não seria capaz de acreditar que, neste tempo ou em qualquer outro, o melhor brinquedo para crianças de cinco anos deviam ser pistolas carregadas. E por isso a princesa se inquietava com Kitty mais do que com as filhas mais velhas.

Agora ela temia que Vrónski se limitasse a cortejar a filha. Notava que Kitty já se enamorara dele, mas buscava consolo na ideia de que se tratava de um homem honrado e que, portanto, não faria uma coisa dessas. Ao mesmo tempo, contudo, sabia como era fácil, graças à liberdade de atitudes de hoje em dia, virar a cabeça das mocinhas e como os homens, em geral, davam pouca importância a esse crime. Na semana anterior, Kitty contara à mãe a conversa que tivera com Vrónski, durante a mazurca. Essa conversa, em parte, tranquilizou a princesa; mas ela não conseguia ficar totalmente tranquila. Vrónski disse a Kitty que eles, os dois irmãos, estavam de tal modo acostumados a obedecer à mãe que jamais se decidiam a fazer algo importante sem, antes, ouvir o seu conselho. “E agora espero, como uma felicidade especial, a chegada de minha mãe, de Petersburgo”, disse ele.

Kitty contou-o sem atribuir nenhuma importância a tais palavras. Mas a mãe entendeu de outra maneira. Sabia que se esperava a vinda da velha senhora a qualquer momento, sabia que ela aprovaria a escolha do filho e, embora achasse estranho que Vrónski, mesmo sob o risco de ofender a mãe, não tivesse ainda apresentado seu pedido de casamento, a princesa estava tão ansiosa para realizar o matrimônio e, mais que tudo, para obter alívio para as suas aflições, que acreditou que isso logo aconteceria. Por mais que agora se angustiasse ao ver a infelicidade da filha mais velha, Dolly, que estava à beira de separar-se do marido, a agitação em torno do destino da filha mais nova absorvia todos os seus sentimentos. Naquele dia, com a chegada de Liévin, vinha-se acrescentar mais uma preocupação. Ela receava que a filha, que tivera, em algum momento, segundo lhe parecia, certa afeição por Liévin, pudesse, por um excessivo sentimento de honestidade, rejeitar Vrónski e que, de um modo geral, a vinda de Liévin pudesse complicar e retardar o assunto, já tão perto de uma conclusão.

– Será que ele já chegou há muito tempo? – perguntou a princesa, se referindo a Liévin, quando voltavam para casa.

– Hoje mesmo, maman.

– Quero dizer uma coisa – começou a princesa e, pela sua fisionomia séria e interessada, Kitty adivinhou do que iria tratar.

– Mamãe – disse, corando e voltando-se ligeiro para ela –, por favor, não fale nada a respeito desse assunto. Já sei, eu sei tudo.

Desejava o mesmo que a mãe, mas os motivos do desejo da mãe a ofendiam.

– Só quero dizer que ter dado esperanças a um…

– Mamãe, minha querida, pelo amor de Deus, não fale. É tão horrível falar disso.

– Não vou falar, não vou – respondeu a mãe, vendo lágrimas nos olhos da filha –, mas só uma coisinha, meu anjo: você me prometeu que não teria segredos para mim. Não terá?

– Nunca, mãe, nunca – respondeu Kitty, ruborizada, e olhando de frente para o rosto da mãe. – Mas não tenho nada a dizer agora. Eu… eu… mesmo se quisesse, não saberia o que dizer, nem como… eu não sei…

“Não, é impossível mentir com essas lágrimas”, pensou a mãe, sorrindo da agitação e da felicidade da filha. A princesa sorriu ao imaginar como aquilo que se passava na alma da pobrezinha havia de lhe parecer enorme e importante.

XIII

Kitty experimentou, após o jantar e até o início da noite, um sentimento semelhante ao que tem um jovem antes de uma batalha. O coração batia com força e os pensamentos não conseguiam concentrar-se em nada.

Ela sentia que essa noite, quando os dois se encontrariam pela primeira vez, seria decisiva para o seu destino. E, o tempo todo, ela os via em pensamento, ora separadamente, ora juntos. Quando pensava no passado, detinha-se com satisfação e com ternura nas lembranças de seu convívio com Liévin. As lembranças da infância e da amizade entre Liévin e seu falecido irmão davam um encanto especialmente poético às relações entre Kitty e ele. O amor de Liévin, do qual ela estava convencida, a lisonjeava e a alegrava. E lembrar-se dele era leve. Já em suas recordações sobre Vrónski misturava-se algo de embaraçoso, embora ele fosse, no grau mais elevado, um homem tranquilo e sociável; como se houvesse algo de falso – não nele, que era muito simples e gentil –, mas nela mesma, ao passo que, com Liévin, Kitty sentia-se perfeitamente simples e serena. Por outro lado, assim que pensava no seu futuro com Vrónski, erguia-se à sua frente a perspectiva de uma felicidade deslumbrante; com Liévin, porém, o futuro se apresentava nebuloso.

Tendo subido ao seu quarto, a fim de vestir-se para a noite, e tendo olhado no espelho, Kitty notou com alegria que estava em um de seus bons dias e no completo domínio de todas as suas forças, pois precisaria disso para o que tinha pela frente: sentia uma serenidade interior e uma desembaraçada graça de movimentos.

Às sete e meia, logo depois de descer para a sala de visitas, o criado anunciou:

– Konstantin Dmítritch Liévin.

A princesa ainda estava em seu quarto e o príncipe não descera. “É agora”, pensou Kitty, e todo o sangue afluiu ao seu coração. Ela se assustou com a própria palidez, ao olhar-se num espelho.

No mesmo instante, soube de forma segura que ele viera mais cedo a fim de ficar a sós com ela e pedir a sua mão. E aqui, pela primeira vez, toda a questão se apresentou a Kitty de um ângulo completamente distinto e novo. Só então ela compreendeu que o problema não dizia respeito só a ela – com quem ela seria feliz e a quem amava –, mas também a um homem de quem ela gostava e a quem estava prestes a ofender. E ofender cruelmente… Por quê? Porque ele, alguém tão querido, a amava, estava apaixonado por ela. Mas nada se podia fazer, era preciso e devia ser assim.

“Meu Deus, será que eu mesma terei de lhe dizer?”, pensou Kitty. “Mas o que vou dizer? Será possível dizer-lhe que não o amo? Não seria verdade. O que vou dizer a ele? Direi que amo um outro? Não, isso é impossível. Vou embora, vou fugir.”

Kitty já se aproximara da porta quando ouviu os passos de Liévin. “Não! É desonesto. Do que tenho medo? Não fiz nada de mau. O que tem de ser, será! Direi a verdade. Com ele, não pode haver constrangimento. Aí está ele”, disse, para si mesma, ao ver sua figura vigorosa e tímida, com os olhos radiantes cravados nela. Kitty fitou seu rosto de frente, como que suplicando sua clemência, e lhe estendeu a mão.

– Parece que vim fora de hora, é cedo demais – disse ele, olhando de relance a sala vazia. Quando constatou que sua esperança se cumprira, que ninguém o impediria de se declarar, o rosto de Liévin se fez sombrio.

– Ah, não – respondeu Kitty, e sentou-se à mesa.

– Mas eu queria exatamente isto, encontrá-la a sós – começou Liévin, sem se sentar e sem olhar para ela, a fim de não perder a coragem.

– Mamãe vai descer daqui a pouco. Cansou-se muito, ontem. Ontem…

Kitty falava sem sequer saber o que seus lábios diziam e sem desviar dele o olhar terno e suplicante.

Liévin olhou de súbito para ela; Kitty se ruborizou e calou-se.

– Eu lhe disse que eu não sabia se ficaria aqui muito tempo… que isso dependia da senhorita…

Ela baixou a cabeça, cada vez mais, sem saber o que havia de responder ao que estava por vir.

– Que isso depende da senhorita – repetiu ele. – Eu queria dizer… eu queria dizer… Eu vim para… que… seja a minha esposa! – declarou, sem saber o que dizia; mas, se dando conta de que o mais terrível já fora dito, deteve-se e fitou-a.

Kitty respirava ofegante, sem olhar para Liévin. Sentia-se em êxtase. Sua alma estava repleta de felicidade. Kitty não esperava, de forma alguma, que a declaração do amor de Liévin produzisse nela uma impressão tão forte. Mas durou só um momento. Kitty lembrou-se de Vrónski. Ergueu para Liévin os olhos luminosos e sinceros e, vendo seu rosto desesperado, respondeu depressa:

– Não pode ser… perdoe-me…

Como ela estivera perto dele, um minuto antes, como Kitty era importante para a vida de Liévin! E como agora se tornara alheia e distante para ele!

– Não poderia mesmo ser de outro modo – respondeu, sem olhar para Kitty.

Após uma reverência, fez menção de sair…

XIV

Naquele exato momento, desceu a princesa. Em seu rosto, refletiu-se um horror quando os viu a sós e suas fisionomias aflitas. Liévin saudou-a com uma reverência sem nada dizer. Kitty ficou calada, sem erguer os olhos. “Graças a Deus, ela o recusou”, pensou a mãe, e seu rosto passou a brilhar com o sorriso habitual com que recebia os convidados nas quintas-feiras. Sentou-se e começou a interrogar Liévin a respeito da sua vida no campo. Ele sentou-se de novo, à espera da chegada dos convidados, para então poder sair sem ser notado.

Cinco minutos depois, chegou uma amiga de Kitty, a condessa Nordston, que casara no inverno anterior.

Era uma mulher seca, amarelada, de olhos negros brilhantes, doentia e nervosa. Adorava Kitty e sua afeição por ela, como sempre ocorre na afeição de mulheres casadas por moças solteiras, se traduzia no desejo de casar Kitty segundo o seu ideal de felicidade e, por isso, queria casá-la com Vrónski. Liévin, a quem ela encontrara com frequência na casa dos Cherbátski no início do inverno, sempre lhe desagradara. Sua ocupação predileta e constante nos encontros com Liévin consistia em zombar dele.

– Adoro quando, das alturas da sua majestade, ele olha para mim, ou quando interrompe sua conversa inteligente porque sou uma tola, ou quando se mostra condescendente. Isto eu adoro: quando ele se mostra condescendente comigo! Fico muito contente que ele não consiga me suportar – dizia ela, sobre Liévin.

A condessa tinha razão porque, de fato, Liévin não conseguia suportá-la e desprezava aquilo de que ela se orgulhava e que tinha por um mérito – o seu nervosismo, o seu refinado desprezo e indiferença por tudo o que era grosseiro e comum.

Entre Nordston e Liévin, estabeleceu-se um tipo de relacionamento não raro em sociedade, no qual duas pessoas, que exteriormente mantêm relações amigáveis, se desprezam mutuamente a tal ponto que não conseguem tratar-se com seriedade e não conseguem sequer ofender-se.

A condessa Nordston imediatamente cumprimentou Liévin, com uma reverência.

– Ah! Konstantin Dmítritch! O senhor está de volta à nossa Babilônia devassa – disse ela, estendendo-lhe a mão amarela e miúda e lembrando as palavras ditas por Liévin em algum dia no início do inverno, segundo as quais Moscou era uma Babilônia. – Ora, será que a Babilônia se regenerou ou o senhor se degenerou? – acrescentou, olhando para Kitty, com um sorrisinho maroto.

– Muito me lisonjeia, condessa, que a senhora recorde minhas palavras – respondeu Liévin, que tivera tempo de se recobrar e agora, por força do hábito, adotava sua atitude jocosa com relação à condessa Nordston. – Não há dúvida que elas a impressionaram profundamente.

– Ah, e como não? Eu sempre anoto tudo. E então, Kitty, foi patinar de novo?…

E passou a falar com Kitty. Por mais que fosse embaraçoso para Liévin retirar-se naquele momento, ainda seria mais fácil enfrentar esse incômodo do que permanecer ali a noite inteira e ver Kitty, que raramente dirigia os olhos para ele e se esquivava do seu olhar. Liévin fez menção de levantar-se, mas a princesa, notando que ele estava calado, dirigiu-lhe a palavra:

– O senhor vai ficar muito tempo em Moscou? Afinal, creio que o senhor anda muito atarefado com o seu formidável ziemstvo e não pode demorar-se.

– Não, princesa, já não participo mais do ziemstvo – respondeu ele. – Vim só por alguns dias.

“Há alguma coisa diferente nele”, pensou a condessa Nordston, observando atentamente o rosto severo e grave de Liévin, “por alguma razão, não se entrega às suas discussões apaixonadas. Mas num instante vou tirá-lo da sua toca. Adoro tremendamente fazê-lo de tolo em presença de Kitty, e o farei”.

– Konstantin Dmítritch – disse ela –, explique-me, por favor, o que significa… o senhor conhece tudo isso… em nossas terras, na aldeia de Kaluga, todos os mujiques e todas as camponesas gastaram tudo o que tinham com bebida e agora não nos pagam nada. O que isso significa? O senhor sempre elogia tanto os mujiques.

Nesse momento, uma outra senhora entrou no salão e Liévin se levantou.

– Perdoe-me, condessa, mas eu, na verdade, nada sei sobre isso e nada lhe posso dizer – respondeu, voltando os olhos para o militar que entrara atrás da senhora.

“Deve ser Vrónski”, pensou Liévin e, para certificar-se, olhou para Kitty, de relance. Ela já tivera tempo de olhar para Vrónski e olhou de novo para Liévin. E apenas por esse movimento involuntário de seus olhos, que começaram a brilhar, Liévin compreendeu que ela amava aquele homem, compreendeu-o com tanta certeza como se Kitty o tivesse dito. Mas que espécie de homem era ele?

Agora – para o bem ou para o mal –, Liévin não podia ir embora, tinha de saber que tipo de homem era aquele a quem Kitty amava.

Há pessoas que, ao encontrar um rival bem-sucedido, em qualquer tipo de disputa, estão prontas a, no mesmo instante, dar as costas para tudo o que houver nele de bom e só enxergar o que tiver de ruim; há pessoas que, ao contrário, desejam, mais que tudo, encontrar nesse rival bem-sucedido as qualidades que o levaram a vencer e nele procuram, com uma dor agoniante no coração, apenas o que tiver de bom. Liévin pertencia a esta espécie. Mas não foi difícil, para ele, perceber o que havia de bom e de encantador em Vrónski. Saltava aos olhos, prontamente. Vrónski era um homem moreno, não muito alto, de compleição robusta, de rosto belo e bondoso, excepcionalmente sereno e firme. Em seu rosto e em sua figura, desde os cabelos negros aparados bem curtos e o queixo recém-raspado até o uniforme largo e novo em folha, tudo era simples e, ao mesmo tempo, elegante. Depois de dar passagem para a senhora que entrara, Vrónski aproximou-se da princesa e, depois, de Kitty.

Ao se aproximar dela, os olhos bonitos de Vrónski rebrilharam de um modo especialmente carinhoso e, com um sorriso feliz, quase imperceptível, ao mesmo tempo triunfante e modesto (assim pareceu a Liévin), inclinando-se reverente e cauteloso diante de Kitty, estendeu-lhe a mão pequena mas larga.

Depois de cumprimentar a todos e dizer-lhes algumas palavras, sentou-se, sem ter relanceado uma única vez os olhos de Liévin, que não se desviavam dele.

– Permita que lhe apresente – disse a princesa, apontando para Liévin. – Konstantin Dmítritch Liévin. Conde Aleksiei Kirílovitch Vrónski.

Vrónski levantou-se e, fitando amistosamente os olhos de Liévin, apertou-lhe a mão.

– Por pouco não jantei em companhia do senhor, neste inverno – disse ele, com o seu sorriso franco e simples –, mas, inesperadamente, o senhor voltou para o interior.

– Konstantin Dmítritch despreza e odeia a cidade e a todos nós, citadinos – disse a condessa Nordston.

– Minhas palavras devem ter causado uma impressão muito forte na senhora, para que se lembre delas tão bem – respondeu Liévin e, se dando conta de que já dissera o mesmo antes, ruborizou-se.

Vrónski olhou de relance para Liévin, para a condessa Nordston, e sorriu.

– E o senhor fica sempre no campo? – perguntou ele. – Não será enfadonho, no inverno?

– Não é enfadonho, se há com que se ocupar, e além disso estar em companhia de si mesmo não é enfadonho – respondeu Liévin, de modo brusco.

– Adoro o campo – disse Vrónski, percebendo o tom de Liévin, mas sem demonstrá-lo.

– Mas quero crer, conde, que o senhor não aceitaria viver sempre no campo – disse a condessa Nordston.

– Não sei, não experimentei por muito tempo. Mas conheci um sentimento estranho – prosseguiu. – Em parte alguma senti tanta saudade do campo, da aldeia russa, com os mujiques e suas alpercatas feitas de casca de tília, como no inverno que passei com minha mãe, em Nice. Nice mesma já é enfadonha, a senhora sabe. E ficar em Nápoles e Sorrento só é bom por um breve tempo. E justamente lá eu tinha as lembranças mais vivas da Rússia, e justamente do campo. Elas pareciam…

Falava, dirigindo-se ora a Kitty, ora a Liévin, passando de um para o outro o seu olhar sereno e amigável – e falava, obviamente, o que lhe vinha à cabeça.

Ao notar que a condessa Nordston queria dizer alguma coisa, Vrónski se interrompeu, sem concluir o que começara, e passou a ouvi-la com atenção.

A conversa não silenciou nem por um minuto, tanto assim que a princesa, que tinha sempre de reserva, para o caso de falta de assunto, duas armas pesadas: a educação clássica e a educação atual, e o serviço militar obrigatório – não se viu obrigada a apresentá-las e a condessa Nordston não teve necessidade de provocar Liévin.

Liévin queria, mas não conseguia intervir na conversa geral; a cada minuto, dizia a si mesmo: “Agora vou embora”, mas não saía, sempre à espera de algo.

A conversa enveredou para as mesas que giram sozinhas e para os espíritos, e a condessa Nordston, que acreditava no espiritismo, passou a relatar prodígios que presenciara.

– Ah, condessa, pelo amor de Deus, leve-me, sem falta, leve-me até eles! Nunca presenciei nada de extraordinário, por mais que eu tenha procurado, por toda parte – disse Vrónski, sorrindo.

– Está bem, no próximo sábado – respondeu a condessa Nordston. – Mas e o senhor, Konstantin Dmítritch, acredita? – perguntou para Liévin.

– Para que a senhora pergunta? Sabe muito bem o que vou dizer.

– Mas quero ouvir sua opinião.

– Minha opinião – respondeu Liévin – é simplesmente que essas mesas que giram demonstram como a chamada sociedade instruída não é mais elevada do que os mujiques. Eles creem em olho-grande, em feitiço, em magia, e nós…

– Como, o senhor não acredita?

– Não posso acreditar, condessa.

– Mas se eu mesma vi!

– As camponesas também dizem ter visto duendes.

– Então o senhor acha que eu não digo a verdade?

E soltou uma risada, sem nenhuma alegria.

– Não, Macha. Konstantin Dmítritch diz que não pode acreditar – explicou Kitty, ruborizando-se por Liévin, o qual se deu conta disso, irritou-se ainda mais e fez menção de responder, mas Vrónski, com o seu sorriso franco e alegre, acudiu com presteza para salvar a conversa, que ameaçava tomar um rumo desagradável.

– O senhor não admite a menor possibilidade? – perguntou ele. – Por quê? Admitimos a existência da eletricidade, que não conhecemos; por que, então, não poderia existir uma força nova, ainda ignorada por nós, a qual…

– Quando a eletricidade foi descoberta – interrompeu Liévin, afoito –, revelou-se apenas o fenômeno, e não se sabia de onde ela provinha e o que a produzia, e passou-se um século antes que pensassem numa aplicação para ela. Já os espíritas, ao contrário, começaram com mesas que escrevem para eles e espíritos que vêm ao encontro deles, e depois passaram a falar que isso é uma força desconhecida.

Vrónski ouviu Liévin atentamente, como ouvia a todos, obviamente interessado em suas palavras.

– Sim, mas os espíritas dizem: não sabemos, hoje, o que é essa força, mas ela existe, e são estas as condições em que ela atua. Cabe aos cientistas descobrir em que consiste essa força. Não, eu não vejo por que não possa tratar-se de uma força nova, se ela…

– Porque – interrompeu Liévin –, com a eletricidade, toda vez que se fricciona o pelo contra o breu, se verifica um fenômeno determinado, ao passo que nesse caso ele nem sempre ocorre, portanto não se trata de um fenômeno natural.

Pressentindo, na certa, que a conversa tomava um caráter demasiado sério para a anfitriã, Vrónski não retrucou e, numa tentativa de mudar de assunto, sorriu alegre e voltou-se para as senhoras.

– Façamos um teste, agora, condessa – começou ele, mas Liévin queria declarar até o fim o que pensava.

– Creio – prosseguiu ele – que essa tentativa dos espíritas de explicar seus prodígios por meio de alguma nova força é a mais frustrante possível. Eles falam abertamente de uma força dos espíritos, mas querem submetê-la a uma prova material.

Todos esperavam que Liévin terminasse de falar, e ele se deu conta disso.

– Pois acho que o senhor daria um médium excelente – opinou a condessa Nordston. – Há no senhor algo de exaltado.

Liévin abriu a boca, fez menção de dizer alguma coisa, ruborizou-se e nada falou.

– Vamos lá, jovem princesa, façamos a experiência da mesa, por favor – disse Vrónski. – Princesa, a senhora permite?

E Vrónski levantou-se, procurando uma mesinha com os olhos.

Kitty levantou-se para trazer uma mesinha e, ao passar, seus olhos cruzaram com os de Liévin. Sentiu pena dele, com toda a alma, ainda mais porque lastimava sua infelicidade, cuja causa era ela mesma. “Se puder me perdoar, perdoe”, disse o seu olhar. “Estou muito feliz.”

“Odeio a todos, também à senhorita e a mim mesmo” – respondeu o olhar de Liévin, que foi apanhar o chapéu. Mas não era seu destino sair. Na hora em que os outros se acomodavam ao redor da mesa e em que Liévin ia retirar-se, entrou o velho príncipe e, depois de cumprimentar as senhoras, voltou-se para Liévin.

– Ah! – começou, alegremente. – Está aqui há muito tempo? Eu não sabia que você estava aqui. Estou muito feliz em ver o senhor.

O velho príncipe às vezes tratava Liévin por “você” e outras vezes por “o senhor”. Abraçou-o e, falando com ele, não notou Vrónski, que se levantara e esperava tranquilamente que o príncipe lhe dirigisse a palavra.

Kitty pressentiu que, após o que ocorrera, a amabilidade do pai representava um peso a mais para Liévin. Viu também como o pai, por fim, respondeu friamente ao cumprimento de Vrónski e como Vrónski, com benévola perplexidade, observava seu pai, tentando em vão compreender como e por que mostrava ele uma atitude inamistosa, e Kitty ruborizou-se.

– Príncipe, deixe Konstantin Dmítritch ficar conosco um pouco – disse a condessa Nordston. – Queremos fazer uma experiência.

– Que experiência? Rodar a mesa? Ora, queiram me desculpar, senhoras e cavalheiros, mas para mim o jogo de argolas é mais divertido – disse o velho príncipe, olhando para Vrónski e adivinhando que partira dele a ideia. – O jogo de argolas pelo menos ainda faz algum sentido.

Vrónski fitou com surpresa o príncipe, com seus olhos firmes e, sorrindo ligeiramente, passou de imediato a falar com a condessa Nordston a respeito do grande baile marcado para a semana seguinte.

– A senhorita, espero, vai comparecer, não é mesmo? – perguntou ele a Kitty.

Assim que o velho príncipe lhe deu as costas, Liévin saiu sem ser notado e a derradeira impressão que levou consigo daquela noite foi a do rosto sorridente e feliz de Kitty, ao responder a pergunta de Vrónski a respeito do baile.